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Alice Munro, a dama do Nobel

Escritora parou de escrever, mas ganhou o cobiçado prêmio

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2013 | 19h02

O secretário permanente da Academia Sueca, Peter Englund, fez a comparação em tom elogioso, mas o fato é que a escritora canadense Alice Munro, de 82 anos, premiada com o Nobel de Literatura de 2013, simplesmente detesta o epíteto “Chekhov canadense”. Por que Englund não comparou Munro à americana Flannery O’Connor? Ou, para ser mais fiel à escritora, por que não citar suas duas principais referências, William Maxwell e William Trevor, especialmente o último, irlandês com uma formação muito parecida com a da canadense, nascida numa família de granjeiros protestantes e oprimida pelo provincianismo de Ontario?

Alice Munro é delicada como Chekhov, como disse Englund, mas está mais para a zona sombria, niilista, de Turguêniev. Nela há sempre um narrador onisciente, personagens deslocados e ecos autobiográficos, mesmo quando trata de temas escabrosos como o do conto Dimensões, de Felicidade Demais, talvez o melhor entre tantos que escreveu.

No conto, uma mulher viaja de ônibus para visitar o marido insano preso, assassino de seus filhos. É o tipo de tema que exige mais que uma escritora habilidosa. É improvável que o leitor identifique em seus contos um só personagem que não pertença ao rol dos desajustados. Em seus vários livros publicados no Brasil – o mais recente O Amor de uma Boa Mulher (Companhia das Letras) – as mulheres são empurradas para a marginalidade, reforçando a condição de Munro como moradora da zona rural de Ontário quando jovem.

Intelectual e ávida leitora entre provincianos, Munro sentia-se, como disse numa entrevista, uma perfeita “exilada”, uma “espiã” interiorana. Começou sua carreira ainda jovem, publicando, aos 19 anos, seu primeiro livro de contos, The Dimensions of a Shadow. Um ano depois, em 1951, abandonou os estudos e casou-se com o livreiro James Munro. Mudaram-se para Vancouver e lá passaram 20 anos, período em que teve três filhas. Munro, surpreendentemente, trocou a literatura por uma pacata vida de dona de casa, escrevendo apenas quando as filhas dormiam. Isso explica, em parte, sua opção pelo conto curto, que, ela espera, seja mais valorizado com o Nobel.

Alice Munro era uma dona de casa até descobrir que poderia escrever sobre os vizinhos

Alice Munro, ao receber a notícia de que era a vencedora do Nobel, pelo qual vai ganhar US$ 1,2 milhão, disse que sabia estar no páreo, mas não esperava seguir o caminho de Saul Below, outro canadense premiado com o Nobel (em 1976). Motivos não faltam para a surpresa de Alice. Sua conterrânea Margaret Atwood lembrou, na edição digital do jornal The Guardian, que a amiga era vista no Canadá, nos anos 1950 e 1960, como uma dona de casa excêntrica, que escrevia contos nas horas vagas. Seus temas eram descritos pelos críticos da época como “enfadonhos” e “domésticos”. Também por força dessas críticas, o nome de Alice Munro demorou para atravessar a fronteira canadense, mas, quando isso aconteceu, não pararam de oferecer prêmios a ela, sendo o último o cobiçado Man Booker Prize (em 2009).

Alice Munro conquistou igualmente muitos leitores, chegando a vender 1 milhão de exemplares nos EUA. No Brasil, ela foi publicada pelas editoras Globo e Companhia das Letras. A primeira lançou, em 2004, Ódio, Amizade, Namoro, Amor e Casamento, que será reeditado em dezembro, preparando o terreno para outros três livros que serão publicados a partir do próximo ano: Selected Stories (1996), Runaway (de 2004, publicado em 2006 como Fugitiva, pela Companhia das Letras) e The View from Castle Rock (2006). A Companhia das Letras, além do citado Fugitiva, traduziu Felicidade Demais (2009) e O Amor de uma Boa Mulher (1998), coletânea em que a condição feminina é o tema predominante dos contos, dedicados à transformação de mulheres provocada por imprevistos – como o convite para uma dona de casa interpretar Eurídice numa montagem amadora.

Nos livros de Alice Munro, com certa frequência a vida de seus personagens muda de forma abrupta, reprisando a experiência da própria autora, que só assumiu sua vida profissional após a separação do primeiro marido, com quem dividia a direção de uma livraria. Dona de casa, sua literatura acontecia no hiato entre o nascimento de uma filha e outra. Mas são os fatos corriqueiros transformados em visões epifânicas que caracterizam os contos da canadense, entre eles um que se tornou popular (The Bear Came Over The Mountain) graças à versão cinematográfica, Longe Dela. No filme, Julie Christie interpreta uma vítima do mal de Alzheimer. Internada numa clínica, ela se apaixona por outro interno, para tristeza do dedicado marido.

O apego de Munro por personagens da zona rural confere às histórias um tom intimista, mas a simplicidade dos provincianos esconde a complexidade moral de pessoas atraídas pelo abismo, sendo por vezes tragadas por esse impulso.

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