Alice Brill ganha a mais ampla retrospectiva de sua obra

Estão expostos na Faap mais de 100 trabalhos em diferentes técnicas e suportes

Agencia Estado

02 de julho de 2007 | 09h22

Está em cartaz no Museu de Arte Brasileira da Faap uma grande exposição dedicada a Alice Brill, oportunidade rara de vislumbrar de maneira ampla a integridade de sua obra. A mostra reúne mais de cem trabalhos, em técnicas e suportes dos mais variados, perfazendo uma espécie de roteiro visual das principais questões que mobilizaram a artista em mais de meio século de criação. Profundamente atenta aos caminhos e soluções encontrados por aqueles que admirava - dentre eles seu pai, o pintor Erich Brill, com quem aprendeu a pintar e que está muito bem representado na exposição, e o mestre Mario Zanini, a quem dedicou um livro - Alice trilha um caminho ao mesmo tempo de diálogo e de busca de vocabulário próprio, de conciliação harmônica entre diferentes formas de expressão e um repertório estável de temas.A montagem da exposição, que parte dos conceitos um tanto vagos de Diálogos e Encontros - que se não elucidam tampouco comprometem a leitura das obras -, parece privilegiar o nexo entre as próprias obras. Há, por exemplo, interessantes contraposições entre as experiências realizadas por Alice em técnicas como o batik e a impressão em papel de arroz. Ou ainda uma fascinante reconstituição da aproximação entre fotografia e pintura, mostrando como ela cria quatro telas distintas a partir de um mesmo clichê feito numa rua de Salvador. O olhar da fotógrafa e da pintora se complementam assim, dando continuidade ao trabalho de enquadramento e representação seletiva do real para além do instante de captação da imagem fotográfica.Interação: homem e cenárioÉ indiscutível a presença dominante da paisagem em toda sua obra, seja nas casinhas pintadas de forma pueril ainda na chegada ao Brasil seja nas belíssimas paisagens urbanas da década de 80. Estas últimas são verdadeiros jogos compositivos que buscam destacar a massa imponente das construções de uma São Paulo cada vez mais adensada e verticalizada e ao mesmo tempo exploram a leveza da transparência, permitindo que o olho vagueie, atravesse e abarque a estrutura, dando coerência e leveza ao conjunto. É o caso, por exemplo, de Sumaré, trabalho feito em batik sobre papel de arroz datado de 1983.É curioso, no entanto, como o ponto de vista colocado pela artista é aquele do homem que vê e que interage com esse cenário rural ou urbano, mesmo nas paisagens despovoadas. Surgem com freqüência em suas telas pequenas pequenas figuras esboçadas, sem fisionomias ou traços definidos, como que tiradas de desenhos infantis mas que dão ao todo uma humanidade às vezes comovente, como em Cuzco ou Isolamento, ambas de 1966.Esta última, que representa esboços esquálidos e curvados de figuras humanas, isolados dentro de casulos contíguos mas incomunicáveis, transmite uma sensação mista de tristeza e impotência um tanto incomum na pintura de Alice, mas que parece manter grande relação com o momento por que passava o País nos primeiros tempos do regime militar. E de certa maneira também remete à trajetória dramática da artista na juventude, o exílio da Alemanha sob o comando dos nazistas e a perda do pai, fuzilado no campo de concentração em 1942, relembrada na exposição com um núcleo bastante interessante de documentos e obras do período.Alice Brill. Museu de Arte Brasileira da Faap. Rua Alagoas, 903, telefone 3662-7198. 3.ª a 6.ª, 10 h às 20 h; sáb. e dom., 13 h às 17 h. Grátis. Até 15/7

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