Algumas relações perigosas

Como é sabido, João amava Teresa, mas esta amava Raimundo, que só tinha olhos para Maria, que se amarrava no Joaquim. Vai daí que nada deu certo: João mandou-se para os Estados Unidos, Teresa foi para um convento, Raimundo morreu num desastre, Maria virou solteirona e Joaquim se matou.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2011 | 03h07

Em prosa, a quadrilha poética de Drummond perde a graça, reduz-se a um promissor esboço ficcional, que tanto pode gerar uma tragédia sobre desilusões amorosas como um pífio dramalhão sobre desajustes afetivos. Ou mesmo um arrazoado sobre contradanças e coincidências, reais ou ficcionais, tão ao gosto de pós-modernistas como Enrique Villa-Matas e David Markson.

Na forma original, a trouvaille de Drummond me serviu de inspiração para uma brincadeira que por uns tempos, no final dos anos 1980, compartilhei com os leitores da Folha de S. Paulo e da revista Bundas. Embora inspirada em Drummond, minha quadrilha ganhou um nome laclosiano, Relações Perigosas, não porque desejasse homenagear Choderlos de Laclos ou pegar carona no sucesso da versão para o cinema de Les Liaisons Dangereuses, mas por causa das ligações que nela se articulam, ao sabor de afinidades e coincidências gratuitas, porém autênticas, como convém a uma brincadeira intelectualmente saudável.

Sempre entram na dança (ou contradança) oito figuras, ligadas entre si por sete diferentes afinidades. Quem abre a roda obrigatoriamente a fecha, pois sem circularidade o jogo, a meu ver, não tem a mesma graça. A quadrilha de Drummond tem uma circularidade distinta: em vez de João, quem fecha a roda é um personagem que só entra em cena para dar à dança um insólito, se bem que arredondado, desfecho.

Algumas Relações Perigosas:

Olavo Bilac não gostava de música, como João Cabral de Melo Neto, que também foi diplomata, como Vinicius de Moraes, que viveu alguns anos em Paris, como Susan Sontag, que morreu de leucemia, como Madame Curie, que comia muito pouco, como Mahatma Gandhi, que só se vestia de branco, como Thiago de Mello, que é poeta, como Olavo Bilac.

Noel Rosa foi tirado a fórceps do ventre materno, como Frank Sinatra, que se casou com Ava Gardner, como Artie Shaw, que era louco por café, como Voltaire, que esteve preso na Bastilha, como o Marquês de Sade, cujo nome deu origem a uma palavra, como o de Joseph I. Guillotin, que também nasceu na França, como a Dama das Camélias, que morreu de tuberculose, como Noel Rosa.

Claude Debussy vivia criticando Maurice Ravel, como Igor Stravinski, que se aventurou no jazz, como Darius Milhaud, que sentia saudades do Brasil, como Gonçalves Dias, que era fascinado pelos nossos índios, como Sting, que tentou ser ator de cinema, como Yukio Mishima, que, apesar de homossexual, casou-se com uma mulher, como Paul Verlaine, que foi influenciado pelo impressionismo, como Claude Debussy.

Doris Lessing trabalhou de telefonista, como Aristóteles Onassis, que transou com Eva Perón, como Juan Domingo Perón, que era filho bastardo, como Richard Wagner, que acreditava em reencarnação, como Henry Ford, que cultivou maconha em seu quintal, como Dennis Hopper, que era fascinado por Los Angeles, como Ray Bradbury, que acreditava em seres extraterrenos, como Doris Lessing.

David Markson faz algo parecido, salvo engano desde meados dos anos 1990, mas sem a mesma rigidez estrutural. Livre dos constrangimentos da circularidade obrigatória, dispõe de forma contínua, com variada pontuação, o seu chorrilho de "cultura inútil", basicamente de natureza literária, montando uma cadeia de analogias e contrastes que se imbricam ao longo de, em média, 200 páginas.

A um comentário de Beckett sobre Joyce justapõe-se outro, quase ipsis litteris, de Hannah Arendt sobre Heidegger. Ao motivo da dispensa de Eliot do serviço militar (uma hérnia) justapõe-se o astigmatismo que livrou Pound de também arriscar a vida nos campos de batalha da 1.ª Guerra Mundial. Curiosidades do gênero "pais de filhos bastardos", "filhos de pais analfabetos", "escritores que não concluíram o ensino médio", ou trivialidades sobre carências, manias e deficiências de tais e quais criadores (Zola tinha pavor de raios e trovões, Schopenhauer falava sozinho no meio da rua, Edmund Wilson morreu sem ler Dom Quixote, Wagner usava ceroulas cor-de-rosa, Victor Hugo jamais conseguiu ir além da página 4 de O Vermelho e o Negro) recendem a almanaque, mas o modo criativo como Markson organiza e cadencia essas informações faz toda a diferença.

Lembrar que Huckleberry Finn tem 13 anos é uma coisa; contrastar sua idade com a de Raskolnikov (10 anos mais velho) é outra, inteiramente diferente. Se reproduzidos sem as mesmas pausas e sem os mesmos verbos, certos paralelismos (Jack, o Estripador e Osama bin Laden eram canhotos; Brahms e Abraham Lincoln tinham olhos azuis, como Hitler; ninguém sabe onde Spinoza, Rembrandt e Christopher Marlowe foram enterrados; Eliot se correspondia com Groucho Marx, por iniciativa do poeta) perderiam muito do seu impacto.

Markson qualifica seus bricabraques de "novels" (romances), por mera convenção taxinômica. São outra coisa, ainda sem nome, a que não faltam originalidade e um certo travo beckettiano. A um deles, publicado em 2001, deu o título de This Is not a Novel (Isto não é um Romance), embora nada o distinga de seus outros bricabraques - Reader's Block, Vanishing Point e The Last Novel -, todos à espera de uma tradução ou, pelo menos, de uma inclusão no catálogo de importados da Livraria Cultura.

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