Algum lugar para a ternura

Sofia Coppola volta à forma com o sensível Somewhere, acolhido com simpatia em Veneza

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2010 | 00h00

Com Somewhere, Sofia Coppola volta à forma. Depois do meio fraquinho Maria Antonieta, a filha de Francis Ford retorna ao ambiente rarefeito que lhe rendeu o ótimo Encontros e Desencontros (Lost in Translation): hotéis de luxo, personagens um tanto vazios, silêncios que se transformam em significados bastante eloquentes. Ela tem o sentido da imagem (não fosse filha de quem é) e dispensa diálogos extensos entre personagens para desenhar seus perfis. Enfim, sabe filmar. E essa qualidade foi acolhida em Veneza, ao menos na sessão de imprensa, com recepção bastante simpática.

Na história, o ator Johnny Marco (Stephen Dorff) vive no célebre Hotel Chateau Marmont, em Los Angeles. Está com braço quebrado e se diverte num estabelecimento em que se pode pedir de tudo no quarto, inclusive duas dançarinas que se exercitam na barra para seu deleite exclusivo. Johnny tem uma filha adolescente que vai visitá-lo e termina por passar uma temporada com ele. Leva a garota à pré-estreia italiana de seu filme, em Milão, onde se submete a uma engraçada coletiva de imprensa, e, em seguida, vai a um daqueles shows televisivos que existem em qualquer parte do mundo, mas são especialidades italianas tanto quanto a pizza de mussarela e o espaguete al sugo. Tudo flutua num ar de certa mofa e ironia. Mas temperado com ternura, o que dá calor e humanidade ao filme.

O trabalho de Sofia com os assim chamados tempos mortos é muito bom. Mescla o acontecimento com o não-acontecimento para produzir essa impressão de esvaziamento do personagem, do homem oco, perdido em sua fama e sem saber o que fazer dela. É um apagamento de fisionomia, desenhado sem qualquer apelo a clichês. Nem mesmo a transformação, a evolução e crise do tipo, que se dá pelo contato mais prolongado com a filha, Cloe (Elle Fanning) cai na tentação da banalidade.

Nota-se que Sofia tem ótimo conhecimento do show biz, no qual vive desde pequena. A entrevista coletiva que encena em Somewhere poderia ter acontecido, sem tirar nem pôr, aqui no próprio Festival de Veneza, inclusive pela qualidade das perguntas. Não falta aquela clássica, a pergunta-mãe, a pergunta das perguntas, inevitavelmente endereçada ao protagonista: "Afinal, quem é Johnny Marco?" Muitos artistas fazem pouco do circo da mídia, esquecendo-se de que são eles, de fato, os ocupantes do picadeiro. Sofia parece não ignorar que todos, estrelas e xeretas, celebridades e paparazzi, fazem parte da grande e diversificada família do mundo do espetáculo.

Utopia. E, por falar em família, é dela, no fundo, que trata o francês Happy Few, de Antony Cordier. Dois casais (Marina Fois e Roschdy Zem; Elodie Bouchez e Nicolas Duvauchelle) se conhecem e passam a coabitar alegremente, num swing feliz, pelo menos durante os primeiros tempos. Num filme em que a sexualidade representa uma espécie de utopia, Cordier trabalha num registro que vai do físico ao palavroso, em determinados momentos.

Ele não vê nenhum motivo para espanto com a prática, "adotada por muitos casais e em todos os extratos sociais", garante. Mas o retrata de forma diferente da (banal) tentativa de quebrar a rotina do matrimônio. O que acontece, de fato, é um caso de amor a quatro. O quarteto aspira a certa estabilidade, mas sofre com a erosão provocada pelo ciúme e a insegurança. "Eles querem ser livres, mas cedem a um impulso maior, que é o do casamento; impulso poderoso, que explica, no fundo, porque pares gays desejam se casar ou adotar filhos." É isso. Em consonância com a própria história que conta, Happy Few é um filme que se deseja ousado sem chegar de fato a sê-lo.

O QUE SOFIA DIZ...

...sobre os hotéis:

"Eu vivi muito em hotéis. Acompanhei meu pai (Francis Ford Coppola) em diversas filmagens e, claro, ficávamos sempre em hotéis. Gosto deles, é um mundo interessante como locação de um filme, porque existe sempre algo de impessoal, mas também de imprevisível. Eu pensei no Hotel Chateau Marmont porque é uma espécie de rito de passagem em Hollywood. Todo jovem ator tem de morar lá."

...sobre Stephen Dorff:

"Ele me veio à cabeça logo que comecei a pensar no filme. Achei que precisava de um tipo caloroso, como ele, para transmitir o que tinha em mente."

...sobre a crise:

"O personagem Johnny representa alguém bem real. Ele é superficial, autodestrutivo, e quando aparece a filha, ele muda; e consegue evoluir."

...sobre Los Angeles:

"Gosto de muitos filmes sobre a cidade. Muitos deles são de época. Preferi retratar a LA atual."

... sobre uma cena:

"Uma das minhas prediletas é aquela com o pai e a filha brincando na piscina do hotel. Acho que ela tem essa domesticidade, essa familiaridade que eu pretendia captar, no fundo."

...sobre o tema do filme:

"Nunca penso num gênero específico. Sempre busco algo diferente. No caso de Somewhere, fui pensando em personagens, construindo e, quando vi, saiu um filme sobre o relacionamento entre pai e filha."

... sobre o pai:

"Meu pai me disse que amou Somewhere. Ele disse que somente eu poderia fazer um filme como este. E esse foi o maior elogio que já recebi."

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