ALGO FALTA NO SENSÍVEL RÂNIA

Na entrevista que deu ao Estado sobre sua participação no belo A Busca, de Luciano Moura, Mariana Lima falou com carinho de Rânia, que estreou na sexta-feira. Disse que o filme é 'pequeno, mas sensível' e acrescentou que havia sido um prazer voltar a dançar. Mariana foi bailarina lá atrás, no seu começo, e no filme da estreante (em longa) Roberta Marques, faz uma coreógrafa. Embora seu papel seja importante, decisivo na trama, Mariana Lima não é a protagonista de Rânia. E talvez nem a jovem Graziela Félix, que faz o papel da garota que dança numa boate e recebe a oferta de virar bailarina clássica - mas para isso terá de ir para o exterior -, seja a protagonista de Rânia. A verdadeira personagem principal do filme é Fortaleza, a capital do Ceará que a própria diretora teve de abandonar, indo se fixar em Amsterdã para desenvolver sua carreira.

O Estado de S.Paulo

25 de março de 2013 | 02h08

De cara, a escolha de Troubled Waters, do CD de covers de Cat Power, para abrir a trilha de Rânia, já dá o tom - o filme tem um andamento lento, mas isso é intencional, e também aposta na melancolia para revelar o mundo da garota. Rânia canta, como diz, para afastar as coisas ruins. A amiga prostituta a leva para dançar na boate. Estela, a coreógrafa de Mariana Lima, percebe seu potencial e lhe acena com a possibilidade de uma carreira mais séria, mas para isso Rânia terá de se dedicar, adquirir disciplina. É um momento de decisão, e isso pesa para a garota de 15 anos, que não está preparada para assumir as rédeas de sua vida.

Rânia ganhou o prêmio da Mostra Novos Rumos no Festival do Rio do ano passado e Graziela Félix foi melhor atriz em alguns festivais do País, inclusive o Cine Ceará. O curioso é a constatação de que a condição social - sua família é de pescadores - pesa menos sobre Rânia do que a cidade, tal como Roberta Marques a vê. Há algo de opressão, de ausência de horizontes, apesar da Beira-Mar, empurrando a jovem a partir, como fez a própria diretora. Embora o filme não seja assumidamente autobiográfico, é pessoal. Roberta colocou nas personagens, em Rânia e Estela, muita coisa que sentiu e vivenciou.

O filme é sensível, como Mariana Lima confidenciou ao repórter, mas vai exigir a participação de um público pré disposto a viajar no tempo da história (e das emoções de Rânia). Existem cenas que parecem improvisadas e em que nem o diálogo nem a interpretação de Graziela vão ao ponto. Outras coisas são muito boas. No blog da produção, a diretora conta que a casa de Rânia pertence a dona Janete, moradora de Santa Terezinha, onde o filme foi feito. E chamou a atenção de Roberta Marques por ter um ateliê de costura funcionando em um dos cômodos, o que se revelou perfeito pelo fato de a mãe de Rânia ser costureira na história. A casa, a cidade, tudo se articula para nos revelar o universo de Rânia. Se o diálogo fraqueja, o relato off acentua o distanciamento. Tanto empenho, tanta honestidade. Mas algo falta para que o filme seja bom. / L.C.M.

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