Mario Anzuoni/ Reuters
Mario Anzuoni/ Reuters

Alfonso Cuarón, o mexicano que vai desafiar a Academia de Hollywood

Cineasta que ironizou Trump pode conquistar um número recorde de estatuetas

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2019 | 14h46


Caro leitor,

No primeiro capítulo de nossa viagem pelo mundo do cinema rumo à premiação do Oscar, apresentamos alguns dos protagonistas dessa história, aqueles artistas que, na noite do dia 24 de fevereiro, poderão gaguejar e agradecer pai e mãe ao receber a cobiçada estatueta dourada. Pois bem, é chegada a hora de nos concentrarmos em um protagonista em especial: o cineasta mexicano Alfonso Cuarón. Afinal, ninguém, nessas duas últimas semanas, fez tanto discurso de agradecimento ao receber prêmios por um único filme, o seu Roma.

Me acompanhe – logo no primeiro domingo do ano, dia 6, o diretor de 57 anos e cabeleira abastada recebeu dois Globos de Ouro: melhor filme estrangeiro e melhor direção. Cuarón fez um discurso comedido, valorizando a qualidade do trabalho de sua equipe de filmagem, inteiramente mexicana. Foi, digamos, um recado elegante para o presidente Donald Trump, que na época já estava batalhando no Congresso americano pela construção do muro na fronteira entre os dois países.

Pois bem, no dia seguinte, Cuarón cruzou o país, indo de Los Angeles a Nova York, onde, na festa dos críticos cinematográficos da cidade, seu longa em preto e branco foi homenageado como melhor direção, direção de fotografia e também melhor filme. De quebra, ele foi indicado pelo Sindicato de Roteiristas, a WGA.

O tin-tin dos champanhes nem tinha terminado e Alfonso (acho que já podemos tratá-lo assim, não? Somos hermanos!) voou de volta a Los Angeles, onde a associação dos críticos cinematográficos o acariciou com os prêmios de melhor diretor de fotografia e melhor filme. Os acenos, aliás, vinham de várias partes do planeta – em Londres, por exemplo, ele foi anunciado como um dos finalistas do Bafta, o Oscar inglês.

O mundo se perguntava quais eram os motivos de tanta adoração. Alfonso, em uma das inúmeras entrevistas que concedeu, deu declarações poéticas ao lembrar, saudoso, da paisagem e dos sons da Cidade do México de sua adolescência. Mas, voltemos à nossa viagem. 

Hei, não se perca, estamos ainda em Los Angeles, onde Alfonso usou vários ternos pretos nas festas promovidas para os votantes do Oscar – em uma delas, esteve acompanhado de uma excelente cabo eleitoral, a belíssima e talentosa Charlize Theron, que levou um Oscar justamente quando ficou feia na tela – até finalmente chegar, no domingo, 13, à cerimônia do Critics’ Choice Awards. E o que aconteceu? Mais troféus para a coleção de Roma, agora quatro de uma só vez: filme, filme estrangeiro, direção e direção de fotografia. 

Já eram tantos troféus conquistados em tão poucos dias que Alfonso relaxou e... Bomba! Bomba! (Você se lembra do colunista que imortalizou essa expressão na TV? Não? Veja aqui quem foi ele.) O cineasta deu uma cutucada em Trump ao usar a mesma expressão nada lisonjeira disparada pelo presidente: “Esses mexicanos são mesmo ruins como se pinta”.

Chegamos, meu amigo, a uma questão crucial: terá Roma atingido seu ponto máximo de glória? Daqui para a frente, essa produção da Netflix que foi rejeitada no Festival de Cannes, mas abraçada pelo de Veneza, que até lhe concedeu seu principal prêmio, o Leão de Ouro, não passará de um figurante, deixando Cuarón na plateia, aplaudindo a vitória dos adversários? Uma parte dessa resposta será dada no próximo dia 22, quando a Academia de Hollywood divulga a lista de seus finalistas. Como dizia um grande dramaturgo brasileiro, morto em 1980, é batata que Roma vai figurar entre os cinco concorrentes de filme estrangeiro. Agora, estará também na lista de diretor, roteiro original, diretor de fotografia e, pasmem, melhor filme do ano?

Se isso se confirmar, Alfonso Cuarón já entraria para a história do Oscar e certamente tiraria o sono de Trump. E, caso aconteça uma rara conjunção de planetas e o mexicano leve todas essas estatuetas para casa, pode até causar um incidente diplomático sem procedência. Se conhecesse os Novos Baianos, Cuarón até poderia tirar um sarro e cantar um grande sucesso do grupo, Besta é Tu.

A lista da terça-feira, dia 22, servirá também para definir outra disputa boa, a de melhor atriz. Lady Gaga, por Nasce uma Estrela, era tida como a grande favorita antes do início das premiações, mas, no Globo de Ouro, ficou apenas com o de melhor canção – teve de aplaudir uma realmente surpresa Glenn Close, pelo belo trabalho em A Esposa

No Critic’s Award, os críticos preferiram não comprar briga e optaram pelo empate. A grande pista será dada no dia 27 de janeiro, quando acontece o SAG’s Award, a premiação do sindicato dos atores. Reza a lenda que quem sai dali vencedor já está com uma mão e meia segurando a estatueta careca do Oscar (nome, aliás, cuja origem ainda rende controvérsias), pois são praticamente os mesmos votantes. E olha que a Academia e a turma do SAG estão em pé de guerra

Ainda muita água vai passar debaixo da ponte que nos levará à festa do dia 24 de fevereiro.

 

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