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Alexandria, a Grande

Alexandria não quer invadir países, mas foi tratada como um cavalo de Troia pela surda liderança do Partido Democrata

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2018 | 02h00

Ela não nasceu em berço de realeza dinástica como seu quase homônimo conquistador da Macedônia na Antiguidade. Nasceu no Bronx, filha de trabalhadores de classe média baixa. Não teve Aristóteles como tutor até os 16 anos de idade. A família porto-riquenha fez vaquinha e seus pais puderam levá-la para longe da péssima escola pública local. Alexandria não quer invadir países, mas foi tratada como um cavalo de Troia pela surda liderança do Partido Democrata.

Até segunda passada, Alexandria Ocasio-Cortez, 28, ex-garçonete e atual professora, não tinha nem página na Wikipédia. Na primária eleitoral democrata da terça, 26, a desconhecida arrancou de 36 pontos atrás de Joseph Crowley, deputado americano de origem irlandesa com 10 mandatos consecutivos e firme controle sobre a máquina partidária do Distrito 14 que cobre 700 mil habitantes, dos bairros de Queens ao Bronx. E tirou de Crowley, somando 15 pontos de vantagem, a chance real de se tornar o próximo líder democrata na Câmara.

Quando lhe perguntaram como, mais uma vez, as pesquisas poderiam errar tanto – 51 pontos! – Alexandria especulou: “Acho que os analistas se concentram em quem deve sair de casa para votar e nós nos concentramos em tirar gente de casa para votar”. Lembro que o voto não é obrigatório nos EUA e, em ano de eleição intermediária, quando não se vota para presidente, a primária eleitoral de cada partido pode ser vencida com votos de meia dúzia de gatos pingados, por causa da abstenção.

Depois da vitória, ela postou no Twitter a foto da sola furada do primeiro sapato que usou para bater de porta em porta, e escreveu: “Para quem diz que ganhamos na ‘demografia’ (leia-se, marrons), ganhamos em todos os grupos”. E concluiu: “Respeitem a diligência”.

Não é preciso se contorcer em exaltações à mandioca para compreender o significado da vitória de Alexandria para o partido que começou a perder sua maioria legislativa a partir de 2010. A atual líder da minoria democrata na Câmara, a deputada Nancy Pelosi, aos 78 anos, tentou minimizar o susto, qualificando a virada como a realidade de um bairro. Pelosi não quer largar o osso e dar passagem à nova liderança a partir de novembro, quando os democratas devem recuperar a maioria, num ano com número recorde de candidatas mulheres e candidatos mais jovens.

De certa forma, a surpresa da ala da gerontocracia no partido em que Joe Biden considera se candidatar a presidente, em 2020, aos 78 anos, ilustra o extraordinário encolhimento democrata sob os oito anos da presidência Obama.

Graças ao superficialismo de jornalistas políticos, Alexandria passou a ser tachada de “a socialista”, um quase palavrão nestes costados. Se a imprensa política não distingue a social democracia europeia de socialismo leninista, por que o público haveria de fazê-lo? Alexandria, na enxurrada de aparições de TV que seguiu sua vitória surpreendente, não se mostrou defensiva como os caciques do seu partido. “Ser democrática socialista”, explicou, “é esperar que, numa sociedade moderna, moral e rica nenhum pobre tenha que lutar para se manter vivo.” Nada a ver com estatização, controle da imprensa ou impor carteirinha da UNE a universitários. Elogios à sua sinceridade partiram até de cantos da direita colérica que já passou pela Fox “News” (as aspas são necessárias para quem, como eu, se submete ao Pravda televisivo de Rupert Murdoch).

O vídeo da campanha de Alexandria, que não aceitou um tostão de corporações, faria João “herança maldita” Santana corar, se fosse capaz de sentir vergonha pelo que fez com Marina Silva em 2014. Redatora do próprio vídeo que se tornou viral, ela começa: “Nasci num lugar onde o seu código postal sela seu destino”. Não é complicado.

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