Alexandre Órion mostra a vida cotidiana em livro

O paulistano Alexandre Órion, de 28 anos, é um desses sujeitos faz-tudo na arte visual. É grafiteiro, fotógrafo, ilustrador e, de quebra, está para lançar seu primeiro trabalho impresso, o livro fotográfico Metabiótica (Ed.Via das Artes), no sábado, na Pinacoteca do Estado. O lançamento terá início com a exposição das fotos contidas no trabalho e um debate entre o artista, o curador da mostra Diógenes Moura, o sociólogo José de Souza Martins e o especialista em fotografia Rubens Fernandes Jr.Metabiótica é um projeto de Órion que visa refletir a atualidade dentro de figuras corriqueiras, normais, e, como ele mesmo diz no livro, registrar o "duelo entre linguagens. O duelo interminável entre pintura e fotografia que, no tempo da informação, nos faz pensar em quão frágeis são as imagens". Os textos da publicação vêm em quatro idiomas (português, inglês, francês e espanhol) e conta com palavras, além das do próprio autor, do professor de Fotografia da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Boris Kossoy; de Diógenes Moura; do renomado fotógrafo Walter Firmo; e do também fotógrafo Tristan Manco. TécnicaSuas imagens são baseadas em fotografias de personagens desconhecidos interagindo, sem que saibam, com grafites pintados apenas com látex e spray preto em muros de São Paulo. Nenhuma das pessoas sabia que estava sendo fotografada. As composições podem parecer montagens feitas nesses programas de computador especializados, mas não são. Órion fez cada uma delas com inusitadas cenas da vida cotidiana, abordando temas como sexo, violência e o trabalho do dia-a-dia. Algo que alguém mal repara que está lá.O artista também parece mais engajado política e socialmente: "A idéia é fazer para o outro... não tenho grandes pretensões comerciais", ponderou o paulistano em entrevista ao Estado. "Se você usa o espaço público, tem de fazer algo que mude profundamente o sentido do espaço... tento fazer coisas que julgo importantes". Órion também ressalta a importância da coletividade em sua obra. "Eu não sou o único autor, eles também são", diz, referindo-se às pessoas que compõem o Metabiótica, começado em 2001 e sem pretensão de ser finalizado. "Nenhum trabalho precisa ser terminado, a arte tem um ritmo próprio."O artista falou também sobre a influência das intervenções urbanas, como o grafite, e das artes visuais, em sua obra. "Eu acredito em arte engajada, principalmente no ambiente da cidade. Não dá pra pensar em espaço urbano sem pensar no coletivo", disse o artista, que tenta fazer de seu trabalho um veículo de mudança. Sem intenção de encerrar seu projeto de intervenção no cenário paulistano, Órion diz que haverá continuação. "O que eu fiz foi só um primeiro passo". Túnel de ossos Em um de seus trabalhos recentes, Ossário, iniciado neste ano, Órion desenhou, no total, 300 metros de caveiras no túnel Max Feffer, que liga a avenida Europa à avenida Cidade Jardim, usando nada mais do que a fuligem da poluição nas paredes e um pano branco. Sem tintas ou truques. Apenas limpando. A intenção do artista era intervir no cenário urbano através de uma composição bem-humorada e reflexiva dos problemas da cidade e, porque não, da modernidade. "O túnel é uma caverna construída pelo homem. Por que não transformá-lo em uma catacumba?", disse Órion. Daí vem a idéia das caveiras na parede.Órion reflete que "É muito estranho o homem criar um espaço no qual ele não pode passar a pé. Um espaço opressor, destinado aos carros, como o túnel". Para ele, "a poluição representa morte", a decadência de uma sociedade, e o artista diz não conseguir entender por que o homem ainda faz tão mal ao seu próprio ambiente. Diz ele que "a idéia de construção está sempre atrelada à destruição do meio ambiente e uma falsa sensação de bem-estar. É um modelo falido de sociedade".As imagens do Ossário foram lavadas pela prefeitura duas vezes. Primeiro Órion fez 160 metros de desenhos, à mão, e a prefeitura limpou apenas os trechos desenhados, não todo o percurso do túnel. Então o artista desenhou mais 140 metros restantes do caminho, o que levou à limpeza, dessa vez, do túnel inteiro. "O gozado é que eles nunca haviam limpado o túnel antes", diz Órion, sem sentir pena de ter suas imagens apagadas das paredes. Comparando o Metabiótica com o Ossário, Órion diz não ter sido "tão incisivo e político" no primeiro, trabalhando mais por personagens cotidianos do que por críticas à realidade urbana, mas sempre tentando passar um mensagem.Metabiótica, 78 páginas; preço sugerido pela editora: R$ 70; lançamento previsto para sábado, dia 9, às 10h30, na Pinacoteca do Estado, Praça da Luz, 2 - Tel. 3229-9844 - Próximo ao Metrô Luz, entrada gratuita

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