Wilton Junior/ Estadão
Wilton Junior/ Estadão

Alexandre Orion apresenta obras em exposição no Rio

Com grafites e pichações, ele questiona o limite entre comercial e estética marginal

HELOISA ARUTH STURM / RIO, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2013 | 02h07

Alexandre Orion é um provocador. O espírito contestador desse artista plástico paulistano é transportado das ruas de São Paulo para o espaço indoor da Galeria Inox, em Copacabana, na exposição Lampoonist, inaugurada sexta-feira. Conhecido por suas inteligentes e bem-humoradas (melhor dizendo, sarcásticas) intervenções urbanas, Orion exibe agora dez obras que questionam os limites entre o puramente comercial e a estética marginal.

Ao utilizar a técnica dos luminosos publicitários para criar esculturas de grafites e uma instalação com pichações em néon, o artista faz uma crítica à apropriação dessas formas de arte pela lógica mercantilista. A combinação entre publicidade e grafite, duas estéticas tão díspares, mas que o mercado está fazendo questão de tentar aproximar, mesmo à força, gera uma espécie de "disfunção visual": ao mesmo tempo em que banaliza a publicidade, tirando dela suas características formais, o artista explicita a técnica intrincada das escritas urbanas.

O embate parece ser mais ideológico do que estético. E remonta à discussão histórica sobre a transição do marginal para o fashion - ou do marginal que é digerido pelo mercado. "Muita coisa que é marginal é absorvida e se transforma em algo cult, erudito. Outras são digeridas pelo mercado de tal maneira que arrancam a alma daquilo, e o que sobra é nada."

Trata-se de uma crítica aos artistas que apresentam a estética urbana sob uma forma comercial, privando-a de sua natureza que é, em essência, transgressora. O que não significa que ele não vá também tirar certo proveito financeiro dessa lógica - suas obras já foram vendidas antes mesmo da abertura da exposição. "Nos Estados Unidos, os artistas de rua entendem que entrar pra publicidade é se tornar cultura. Eles acham que quando fazem a embalagem de um produto, uma lata de refrigerante, estão dando um passo artístico. Mas essas marcas não absorvem, elas realmente digerem a coisa e a esvaziam de significado. E os brasileiros agora estão entrando nesse processo."

O estêncil grafitado na traseira do automóvel vira item de série e é só mais um dos exemplos citados pelo artista que confirmam essa tendência da publicidade em fazer referência ao grafite como algo simplesmente cool. "O que tem de verdadeiramente artístico se esvazia numa replicação da estética. As artes urbanas estão sendo digeridas e transformadas em algo completamente inócuo."

O repertório apreendido nas ruas com as quais interage desde os 13 anos é transposto para a galeria de arte. Termos que tendem a ser depreciativos em alguma medida, ou dúbios, viram matéria-prima para as esculturas de Orion. Assim é que kitsch, cafona e barroco são grafitados em painéis luminosos com formatos rebuscados. "Você está comprando uma palavra. Ela está contaminada de significado. E um significado transitório."

Ao mesmo tempo em que bate de frente com o grafite e a glamourização dessa estética, Orion reverencia a pichação. Na instalação, dividida em seis módulos, as letras marcantes dos muros espalhados pela cidade constroem a frase que ocupa 16 m² de parede - e mais de 130 metros de néon. São apenas oito palavras, mas é preciso muito mais do que alguns poucos segundos para conseguir ler o que está escrito.

Aqui não há espaço para concessões. "Não vou tornar mais legível, nem mais curvilíneo, nem mais agradável. É um trabalho cifrado, mas ao inverso do que acontece com a arte conceitual. Não se trata de cifragem erudita, mas sim marginal. "Qualquer pichador que você trouxer pra porta desta galeria, ele vai ler e entender. E o pichador é a casta mais baixa da nossa sociedade hoje."

Orion faz um paralelo com a arte conceitual. Para ele, a perversidade reside no fato de que nem tudo tem qualidade para ser decifrado ou um discurso para se decifrar. No caso de sua instalação, as palavras vão aparecendo ao leigo com certa dose de esforço: "Observador, contemple bem. Quase tudo é beleza rupestre". É o que diz o mural pichado em néon. "Está tudo ali. É texto. Não preciso de uma legenda, porque o texto já está lá. Agora lê." E decifra.

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