Eliaria Andrade/Estadão
Eliaria Andrade/Estadão

Alexandre Herchcovitch comemora 20 anos de carreira com o lançamento de livro

Estilista conta como foi a evolução de suas criações

Entrevista com

Alexandre Herchcovitch

Maria Rita Alonso , O Estado de S. Paulo

08 de abril de 2015 | 03h00

No imprevisível e efêmero mundo da moda, é difícil ver um estilista autoral manter um trabalho estável e desejado por muito tempo. Ainda mais se ele viver no Brasil, onde os altos e baixos da economia dificultam tudo. Alexandre Herchcovitch conseguiu. O estilista que dominava a cena underground paulistana nos anos 90 tornou-se expoente de uma moda sofisticada, com modelagens complexas, alfaiatarias bem construídas, sem perder seu traço urbano e meio edgy. 

“Dois momentos foram cruciais na minha trajetória. Primeiro, quando decidi trabalhar com moda e depois, mais recentemente, quando entendi que posso ir além dela e ser um designer abrangente.” Sempre na vanguarda, foi um dos primeiros estilistas do País a tornar o seu nome uma grife e a expandir a sua marca assinando linhas de decoração, roupas de cama, óculos, etc. Chegou a explorar o mercado internacional desfilando em NY e Londres e abrindo loja em Tóquio. Seus 20 anos de carreira serão comemorados com a publicação de um grande livro, pela Cosac Naify. Nessa entrevista, ele olha em perspectiva para a sua trajetória e conta como a objetividade e o autoconhecimento foram determinantes no trabalho, na criação e na vida em família que leva hoje, ao lado do marido, o designer Fabio Souza, e de seu filho adotivo.

Um dos principais nomes da moda brasileira, o estilista Alexandre Herchcovitch fala sobre a carreira, suas criações transgressoras e sua obsessão atual em fazer sempre a melhor roupa possível. 

No início da carreira, você vivenciava o lado underground de São Paulo e sua moda era altamente transgressora. Hoje você leva uma vida família. Como isso se reflete em suas criações? 

Antigamente, a transgressão era realmente muito explícita: a caveira, o sangue, o travesti na passarela. Minha roupa era rasgada, sem acabamento, tinha uma coisa crua. Meu segundo desfile foi feito só com tecidos com defeitos, antigos, mofados, que estavam apodrecendo. Hoje minha roupa tem até mais valor por dentro do que por fora. A minha obsessão está em fazer a melhor roupa possível, da forma mais perfeita e durável. Tem gente que cobra que eu seja sempre o Alexandre dos anos 90. Desculpe decepcionar, mas isso não vai acontecer.

O que é transgressor na sua moda hoje? 

Coloco minha transgressão de outra forma. Há uns anos, fiz um desfile só com roupas ladylike, com tons clarinhos e vestidos com cintura bem marcada. As pessoas pensaram: “Nossa, isso é Alexandre?”. Sim, isso foi uma contestação ao avesso. De fato, aquele desfile era agressivo e irônico porque falava de um estereótipo de mulher, que nem sentar pode, nem trabalhar pode, presa numa cintura daquele tamanho. Só que em uma leitura rasa ele é só bonitinho.

Como ter uma carreira criativa consistente, de mais de 20 anos, em um cenário econômico tão volátil como o brasileiro? 

No Brasil, o empresário precisa aprender a se segurar. Vivemos entre os altos e baixos da economia. Quando acontece uma crise como essa de agora, minha preocupação é como vou me manter o mais agarrado a mim mesmo, às coisas que acredito, ao DNA da minha marca. Esse é o jeito que achei de sobreviver.

É muito exercício de autoconhecimento, não? Você faz análise? Não, mas deveria. Inclusive eu deveria ter começado assim que soube que ia adotar um filho. O Fabio (marido de Alexandre) me cobra isso todo dia. Porque ele faz e se preparou bastante para o momento de ser pai.

O fato de ser pai influencia o seu trabalho?

Na verdade, não. Eu nem deixaria. Divido muito bem as coisas. Sempre fui objetivo e não gosto de perder tempo. Se me perguntam se prefiro um tecido de bolinhas pretas com fundo branco, ou vice-versa, minha resposta leva menos de cinco segundos. Posso errar? Claro! Mas tenho muito firmeza porque ali, naquela escolha, está embutida a estação que estamos criando, o tema da coleção, o que faz mais sentido comercialmente. Agora, então, estou ainda mais objetivo porque quero ter mais tempo fora do trabalho.

Sua visão da moda mudou nos últimos 20 anos? 

Continuo vendo a moda como uma das formas genuínas de falar da gente ou de mentir sobre a gente. A roupa é quase um membro, é uma extensão. As pessoas olham e decodificam a nossa personalidade por meio das nossas escolhas. A roupa serve para provocar, para esconder, para contestar. Eu não acredito na frase ‘Não ligo para a moda’.

Você foi um dos primeiros estilistas nacionais a expandir a marca, com licenciamentos de produtos. Como se descobriu um homem de negócios? 

Desenvolver esse lado empresarial não foi algo planejado. Isso surgiu à medida em que ia recebendo as propostas. Muito cedo como profissional precisei negociar meu nome, patrocínios, espaço dentro do desfile. E nunca fui modesto. Sempre tive a exatidão de quanto ia valer essa troca, por isso que meus parceiros estão comigo há décadas. 

Nos anos 90, surgiu ao seu lado uma geração de estilistas que não conseguiu ter uma carreira tão estável como a sua. Como vê isso?

Sempre tive coragem para fazer o que estava na minha cabeça. Isso ajudou a perpetuar a minha marca. Muita gente nesses anos foi engolida por essa máquina que é ter que fazer desfile, que é uma exposição violenta. Para mim, a cada look que entra na passarela, é como se eu tivesse tirando uma peça de roupa do meu corpo. E no final, é como se você entrasse pelado. Detesto, essa é a pior parte.

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