Epitácio Pessoa/AE
Epitácio Pessoa/AE

Alemão Clemens von Wedemeyer expõe no Brasil

Destaque na Documenta 13 de Kassel, artista abre mostra 'A Quarta Parede' no Paço das Artes

Camila Molina - O Estado de S.Paulo,

08 Outubro 2012 | 10h49

Uma ideia de colapso e história tornou-se uma recorrência na Documenta 13 de Kassel, que terminou no último dia 16 de setembro na Alemanha. Os visitantes que procuravam na estação de trem da cidade pela obra de um dos mais consagrados artistas da edição, o sul-africano William Kentridge, tinham a oportunidade de encontrar, naquele local, um dos trabalhos mais densos da mostra, a filme-instalação do alemão Clemens von Wedemeyer. Nascido em Göttingen, em 1974, vivendo e trabalhando entre Berlim e Leipzig, o artista, por vezes definido como um cineasta, usou como mote de sua obra as camadas de história do monastério de Breitenau, que, ao longo de 150 anos, transformou-se em prisão, campo de concentração e de trabalho, reformatório para meninas e, por fim, numa clínica psiquiátrica.

"Como filmmaker, estou interessado na divisão entre o que é fazer um filme e na relação entre realidade e ficção", diz Clemens von Wedemeyer, que acaba de inaugurar no Paço das Artes a mostra A Quarta Parede, instalação com filmes, fotografias e documentos.

De fato, Muster, criada este ano para a Documenta 13, projetava três tempos da história daquele monastério. Em grandes telas, instaladas de modo a formar um triângulo na sala de exibição, era possível ver, paralelamente, a narrativa da ida de dois estudantes, em 1990, ao memorial de Breitenau (usando walkmans e desconectados da densidade do passado); a recriação cinematográfica do momento em que os soldados norte-americanos liberaram o campo de concentração (a passagem mais impactante sobre o passado nazista de Kassel); e a encenação de como foi a experiência de Amelie no então reformatório para meninas. Já em A Quarta Parede (The Fourth Wall), Wedemeyer resgata outra história, a da tribo dos Tasaday, supostamente descoberta nas florestas filipinas na década de 1970. "O trabalho trata da questão do primeiro contato com um povo isolado, de antropologia misturada à ideia de teatro", afirma o artista.

Os Tadasay formavam um grupo de 26 pessoas e até as primeiras reportagens feitas sobre a tribo, em 1971, suas vidas pareciam ''intocadas'' pelas de outros povos e civilizações. Clemens Von Wedemeyer não conhecia essa história até ser convidado, em 2009, a fazer uma obra para o Barbican Centre de Londres. "Estudei fotografia e geografia no início da minha carreira, acho que queria ser fotógrafo da revista National Geographic", brinca o artista. Ao ir atrás de algo que fosse "oposto a Londres", chegou à história da tribo das Filipinas. Descobriu, ainda, que os Tadasay foram controversos, já que em 1986, integrantes do grupo foram vistos fora de suas "cavernas", fumando cigarros e usando calças jeans.

"Quis falar da projeção que fazemos ao tratar de um povo que não conhecemos", diz o alemão. Sua obra crítica sobre o isolamento trata da "maneira como a mídia lida com a história". Na instalação A Quarta Parede, já exibida em outros países, ficamos imersos em um universo de projeções de filmes que Wedemeyer concebeu como obras cinematográficas (em 16 mm e 35 mm) e filmes perdidos (exibidos na TV) recuperados em sua pesquisa, como ainda exibições de fotografias e entrevistas. Nos vemos, afinal, dentro de um espaço que também se abre para a fantasia - antropológica e poética, entre a representação e a história impalpável.

A QUARTA PAREDE

Paço das Artes (Avenida da Universidade, 1, USP). Telefone (011) 3814-4832.

3ª a 6ª, 11h30/19h; sáb. e dom., 12h30/ 17h30. Até 2/12

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