Além dos muros da escola

Carol Bensimon, revelada em 2008 com as narrativas de Pó de Parede e autora do romance Sinuca Embaixo d'Água, discute associação entre escrita e formação universitária

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2010 | 00h00

Em meio a clientes, atendentes e a uma decoração retrô anos 50, marcada pelas cores vivas e por um grande espelho surrado pelos sinais do tempo, Carol Bensimon estava absorvida pela leitura na tarde da última quarta-feira, quando encontrou o Estado. Sentada à uma das mesas de fórmica do café Le Pick Clops, no Marais, um dos distritos centrais de Paris, a jovem empunhava um grande volume, em cuja capa se lia: Alexandrie 1860-1960 - Un Modèle Éphémère de Convivialité: Communautés et Identité Cosmopolite, um conjunto de ensaios, explicou, sobre a metrópole egípcia situada às margens do Mediterrâneo. Estudo para a tese ou só leitura informal?

"Ambos" seria a melhor resposta. Carol estudava porque quer aprender sobre a Alexandria, terra de seus avós, e porque se interessa cada vez mais pelas "identidades confusas", como a sua própria. Mas não o fazia para o doutorado em Literatura que cursa na Universidade Paris III, Sorbonne Nouvelle, e sim para seu próximo trabalho como escritora, uma graphic novel ainda sem data de publicação, e sobre a qual não entra em muitos detalhes. Na prática, a resposta dúbia à dúvida inicial reforçou a ideia de que a menina sorridente, de ar frágil e visual despojado, pontuado por um óculos démodé, tênis, calças jeans verde berrante, T-shirt básica, um relógio de plástico colorido e uma bandana bordô à Axl Rose amarrada ao pulso, seja fruto de um novo cenário literário brasileiro.

Mesmo de forma involuntária, Carol deixa claro pertencer a uma geração de escritores que mescla o talento inato pela escrita de ficção ao conhecimento acadêmico que vem adquirindo dia a dia. A jovem de 27 anos, filha de médicos e da classe média porto-alegrense, fã de Guns N" Roses, é hoje uma escritora na rota do reconhecimento, egressa de uma escola de novos autores em plena consolidação, cujo trabalho advém da inspiração, claro, mas também do domínio das técnicas literárias aprendido na universidade.

Carol é formada em publicidade, profissão que chegou a exercer em Porto Alegre, como redatora de uma agência de porte médio. Mas seu talento para a escrita hoje se expressa com mais força na ficção. Essa guinada começou a se materializar pelo ingresso em uma oficina de Escrita Criativa na capital gaúcha. Comandado há mais de 20 anos pelo escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, o curso é um dos responsáveis por transformar a Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS) em uma espécie de ritual de passagem para jovens escritores da atual cena gaúcha.

Truques. A relação entre a produção literária e o conhecimento acadêmico na vida de Carol se estendeu quando o curso, então uma extensão universitária, foi transformado em mestrado, parte do Programa de Pós-Graduação em Teoria da Literatura, mais uma vez sob a responsabilidade de Assis Brasil. Com o suporte de uma bolsa de estudos, pôde se dedicar em tempo integral a seu maior interesse: escrever.

Do contato com a oficina e com o mestrado, surgiram seus primeiros dois livros: Pó de Parede, de 2008, um apanhado de três contos revelado pela Não Editora, em Porto Alegre, e Sinuca Embaixo d"Água, publicado pela Companhia das Letras em 2009. O romance foi também sua dissertação de mestrado, acompanhado por um ensaio acadêmico sobre o "narrador ausente", aquele que não interfere nos acontecimentos da narrativa.

O trabalho resultou em uma espiral de novas perspectivas. Seu livro está à espera de uma adaptação para o cinema por Rodrigo Teixeira, produtor responsável pelo projeto Amores Expressos. Além disso, é um dos 10 finalistas da edição 2010 do Prêmio São Paulo de Literatura, categoria Romance de estreia, vencida em 2009 por outro gaúcho, Altair Martins, professor do curso de formação de escritores de outra universidade gaúcha. Enquanto colhe sucesso de crítica no Brasil, a escritora estuda na França, onde faz doutorado em Literatura -aprofundando o tema desenvolvido no mestrado - sob orientação de Jean Bessière, professor de Literatura Comparada.

Apesar dos vínculos evidentes, Carol mantém uma relação ambígua entre sua carreira acadêmica e as raízes de sua escrita. Na maior parte do tempo, minimiza a relevância do conhecimento universitário. "Sou grata à oficina, mas tenho algumas restrições. Não sei se realmente faz diferença", diz, descrevendo como "truques" o aprendizado no curso. Carol também não acredita ser influenciada por uma "escola literária", muito menos "gaúcha", que tenha origem na universidade. "A influência da academia na literatura é bem pouca", alega. "Me parece um pouco frio que a literatura seja gerada da teoria acadêmica, quando para mim é um esforço descomunal estudar a teoria."

De fato, sua escrita é até aqui alimentada por um caráter intimista, não tecnicista. Carol diz nem sequer ter autores como referências, mas sim obras esparsas, como Uma Casa no Fim do Mundo, de Michael Cunningham. Talvez por isso não haja remissões ou citações a escritores ou a obras célebres em seus textos. Há observações, experiências, ambiências cotidianas. Em Sinuca, conta, o ponto de partida foram reflexões sobre o desaparecimento de seu melhor amigo, Gabriel Pillar, jovem de 22 anos morto em um acidente de trânsito em 4 de dezembro de 2006, em Porto Alegre. Já a sinuca, em si, é uma referência às jornadas de jogo no Timbuca, um bar, hoje fechado, que se imortalizou na boemia porto-alegrense.

Inspiração. Nos seus personagens, estão refletidas a classe média, o ambiente urbano e provinciano típico do Rio Grande do Sul. Nas sequências que eles protagonizam, explica Carol, estão climas extraídos de atos rotineiros, como ouvir o rock dos anos 90. "Uso esses elementos no processo criativo. Gosto de dialogar com outras formas de arte para criar uma cena", diz Carol. Assim como encontrou inspiração no mundinho porto-alegrense, a autora poderia capturar novos elementos para sua literatura em Paris, onde vive há dois anos, e de onde partirá de volta para casa em 20 de setembro. Mas o faz com parcimônia. A capital francesa, acredita, já foi retratada demais. "Paris é muito perfeita para ambientar uma história. É desolada, melancólica, desencantada", enumera, como quem fala de um intocável clichê.

Mesmo que prime por uma escrita sensível e reduza a importância de seu conhecimento técnico, Carol reconhece usá-lo para fazer suas escolhas estilísticas. Metanarrativas, por exemplo, estão banidas. "Elas são muito restritivas. A literatura já é muito fechada em si mesma, muito escrita para escritores", entende. Indagada sobre aonde pode chegar na mistura de suas duas frentes de interesse, a literatura e a academia, Carol não sabe responder com precisão. Pensa um pouco, olha para os lados e arrisca: "Gostaria de ser uma ponte entre a universidade e o mundo real."

Postal. "Esta é uma cidade muito perfeita para ambientar uma história", diz a gaúcha sobre a capital francesa, onde desenvolve o seu doutorado

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