Aleijadinho foi canibal, mas fez boa digestão

A sugestão do poeta suíço-francês Blaise Cendrars aos modernistas brasileiros, de que "deveriam tomar o trem para Minas ao invés do navio para o Havre", veio depois de uma viagem que fizeram juntos, em 1924, pelas cidades históricas mineiras. A observação foi feita sob o impacto do (re)descobrimento de influências culturais devidamente antropofagiadas e das raízes genuinamente brasileiras que tiveram a oportunidade de vislumbrar. A resposta a Cendrars veio rápida. No livro Pau Brasil, publicado no ano seguinte, Oswald de Andrade celebra o encontro com os Passos de Congonhas, esses "degraus da arte de meu país onde ninguém mais subiu". O gesto antropofágico do poeta modernista ultrapassou a poesia, ampliando-se para uma ação política decisiva que desembocou na criação dos órgãos de preservação do patrimônio histórico e cultural. Era o reconhecimento da obra de Antônio Francisco Lisboa - o Aleijadinho - como referência fundamental para a arte brasileira e luz paradigmática para sua modernidade. A contribuição de Aleijadinho é ampla e profunda. Enquanto o barroco se impunha no litoral brasileiro como um estilo importado, em Minas Gerais o Mestre ia modificando e revolucionando as soluções arquitetônicas das igrejas, utilizando materiais da região, integrando a escultura à pintura e à arquitetura. Dotado de uma sensibilidade versátil, Antônio Francisco Lisboa assinou projetos de templos, encarregando-se desde sua concepção espacial até seus últimos detalhes de decoração e talha, passando pela criação de sua imaginária religiosa. Essas últimas, executadas em madeira ou esteatita - uma espécie de pedra de talco comum na região - constituem o acervo mais significativo de sua obra e onde seu gênio criador se expressa plenamente. Filho ilegítimo do mestre de carpintaria português Manuel Francisco Lisboa com sua escrava Isabel, Antônio Francisco nasceu em Outro Preto em 1738, morrendo na mesma cidade em 1814, aos 76 anos. Sabe-se muito pouco sobre sua vida. Embora viajantes estrangeiros em Minas, como Auguste de Saint-Hilaire (1816-1818) e Jonh Luccock (1818), já fizessem alusões, em seus diários, à existência de um escultor aleijado e genial, só em 1858, o professor e político Rodrigo José Ferreira Bretas publica a primeira biografia de Antônio Francisco Lisboa. Tendo-se formado com a ajuda do pai, aprendendo até mesmo o latim, não consta que Antônio Francisco tenha tido instrução artística formal. Profundamente marcado por passagens da Bíblia, teria tido, ao que tudo indica, acesso a gravuras religiosas européias, sobretudo alemãs. Não é difícil detectar essas influências em sua obra, mas há que se admitir que elas entram como substratos longínquos, antropofagiados e digeridos, diante da força genuína com que Aleijadinho se expressa. De gosto clássico e precioso, aos poucos sua obra, marcada pelo domínio da proporção, da anatomia e do planejamento, vai tornando-se rude e ousada, culminando com esculturas de aspecto francamente expressionista. As figuras deixam a serenidade idílica inicial e adquirem posturas inusitadas, teatralizadas e altamente dramáticas. Adaptação de texto de José Alberto Nemer, publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo em 11 de dezembro de 1998

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