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Alegrias de viúva

Primeira providência da viúva ao voltar do enterro: mandar arrancar aquele maldito carpete

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2018 | 02h00

Ainda no cemitério, enquanto enterrava o marido, dona Maria do Carmo tomou sua primeira decisão de viúva: tão logo chegasse em casa, mandaria arrancar o carpete da sala.

Não era pouca coisa para quem, em tantos anos de casada, raras vezes pôde decidir alguma coisa além do que fazer para o almoço e o jantar. Ou nem isso, pois o finado Barbosa costumava inspecionar o conteúdo das panelas, e soberanamente vetava itens do cardápio já em andamento, ainda que este tivesse sido montado em estrita observância das idiossincrasias culinárias do senhor da casa.

A remoção do carpete, imediatamente contratada, não foi uma decisão qualquer da neoviúva; ao contrário, era a prioridade entre prioridades para quem, todo mês, fora obrigada a esfregar o espesso tecido pardacento com que ela mesma, em má hora, mandara revestir o chão da sala.

Com a multiplicação das manchas, e sobretudo a obrigação de removê-las, dona Do Carmo, incontáveis vezes, tentou inutilmente trazer de novo à luz os tacos de madeira, aliás bonitos - mas cadê que o Barbosa permitia? Vencido na porfia conjugal sobre instalar ou não carpete, num passado já tão encardido quanto o objeto da disputa, o marido, revanchista, a partir de certa altura pareceu caído de amores por ele.

Escaldada, a esposa parou de tocar no assunto; mas foi acumulando ressentimentos, indeléveis como as manchas do carpete. Sua raiva subia ao ponto máximo de ebulição quando se via, todo mês, de esfregão em punho, enquanto ali ao lado, na varanda, o marido dormitava ou lia o caderno de esportes do jornal. Para completar, havia ocasiões em que, em meio à lavação, ele a convocava para cortar as unhas de seus pés, encravadas e - é da esposa a comparação - endurecidas como cascos de cavalo.

Já que a conversa nos trouxe à extremidade dos membros inferiores, seja dito que o Barbosa, marido pouco comparecente porém ciumento, jamais permitiu que a mulher fosse, sozinha, comprar um par de sapatos, tão certo estava de que o vendedor tomaria liberdades lascivas com os pés de sua esposa - aos quais, na verdade, ele mesmo nunca dispensou o mais casual dos afagos.

É improvável, mas não impossível, que neste ponto você esteja reconhecendo os personagens de uma história que contei faz tempo, sobre uma esposa tiranizada pelo marido. Pois saiba que se trata das mesmíssimas criaturas, aqui trazidas de volta para que se contem lances inéditos, além dos já sabidos.

A prepotência do marido, de par com a engolição de sapos da esposa, cumpriu bodas de tudo quanto é metal e pedra, e só mudou de natureza no dia em que o Barbosa, tendo sofrido um derrame, perdeu a voz e os movimentos, assim permanecendo, numa cadeira de rodas, até o fim de seus dias, o qual, numa opinião generalizada, bem que poderia ter vindo mais cedo.

Como para ela a vida não parou, logo no início da doença dona Do Carmo precisou assumir o comando pleno da casa, o que significou adentrar territórios conjugais até então interditos.

Aberto o criado-mudo, descobriu-se que o Barbosa, com aquela pose de marido fiel, tinha outra família, com todos os penduricalhos afetivos e materiais de uma família, aí incluídas umas prestações da compra de eletrodomésticos e fotos de formatura de uma filha, aliás a cara dele.

À descoberta de uma família paralela seguiu-se outra, apenas menos impactante e, de certa forma, cômica: a do chocolate - dezenas e dezenas de barras de chocolate que o Barbosa acumulara, empilhadas, por detrás dos jaquetões, no fundo do guarda-roupa, tão inacessível quanto seu criado-mudo. Então o homem que dizia se privar das delícias deste mundo, por considerá-las antecâmaras do pecado, se fartava de chocolate, escondido até de si mesmo!

Dona Do Carmo ainda hesitou em avançar na inesperada confeitaria - mas, quando começou, não parou mais, ao preço de ganhar uns quilos. Em sua doce vingança, o prazer maior por certo não estava no sabor do chocolate, no caso um produto nacional de boa qualidade.

*

Enquanto o marido viveu, paralisado em sua cadeira mas com olhos e mente a mil, a esposa, administrando imponderáveis doses de delicadeza e temor, manteve a rotina de lavar o carpete, permitindo-se, no máximo, fazê-lo a intervalos mais largos. Pacientemente, esperou enviuvar para separar-se também daqueles metros quadrados de tecido esgarçado.

Fez mais dona Do Carmo: pôde, pela primeira vez, tocar numa pintura a óleo que um dia ele trouxera da rua, adquirida numa dessas feiras de domingo. Ele próprio entronizou o quadro na sala, numa semana em que a mulher fora visitar as primas em Mairiporã. Podia não ser uma obra d’arte, admitiu, mas ganharia upgrade estético se a ele se acrescentasse algum motivo pictórico, quem sabe umas vaquinhas a pastar na tinta verde. Mas que antes disso, avisou, ninguém tocasse nele!

Instalada em sua jubilosa viuvez, dona Do Carmo nem esperou pelo sumiço do carpete para expulsar o quadro da parede agora sua. Por detrás, deparou-se com uma chapa de compensado, e, ao removê-la, julgou estar diante de manifestação pecuniária da Providência Divina: incrustada nos tijolos, havia uma caixa na qual se comprimiam dólares - milhares de dólares.

*

A última vez em que vi dona Do Carmo foi no aeroporto de Guarulhos, prestes a embarcar para a França, com agenda ecumênica o bastante para conciliar peregrinações a Lourdes e noitadas pagãs em cabarés parisienses. Animada, tangeu-me até uma loja onde a vi comprar uma fartura de chocolate, não o produto nacional que o falecido apreciava, e sim guloseima digna da mais alta prateleira, chocolate importado, suíço até dizer chega.

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