Alegria juvenil do cantor fez renascer o velho ''Brasa''

Afora revoluções, têm duas coisas com grande capacidade de derrubar um Rei: um tombo de motocicleta e um flerte na praia, na frente de todo mundo, com uma mulher nova muito bonita.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2010 | 00h00

O show de Roberto Carlos em Copacabana foi marcado por dois momentos-chave: o primeiro, no qual ele confessou que estava quase impossibilitado de cantar em pé por ter caído de moto durante um passeio. O segundo, quando chamou ao palco a cantora sertaneja Paula Fernandes, cujos sorriso, vestido curto e decote quase nocautearam o "Rei" pela segunda vez em uma semana. O homem até derrubou o microfone.

A quatro meses de completar 70 anos, a alegria juvenil de Roberto faz renascer o velho "Brasa" dentro de si, e o impulsiona de volta às potentes máquinas motorizadas da Jovem Guarda e às belas pin-ups de auditório. Demonstra dificuldades públicas, é claro, para lidar com elas. Mas ri dessa ambição nova. Já consegue brincar até com sua própria condição de intocável da MPB. "Eu só canto, bicho. Rei é o Pelé", disse. Ou então, ao gracejar com o sertanejo Marrone dizendo que preferia que este se chamasse "Azulone" (uma de suas obsessões, todos sabem, é rejeitar peremptoriamente a cor marrom).

A transmissão do show pela Globo foi protocolar, pouco imaginativa. Ao vivo, a repórter repetia o mantra "emoção" com os entrevistados, que também não ajudavam: Gloria Perez, Carmo Della Vechia, Rosemary, Luiza Brunet. O público, espetacular em sua representatividade do povo brasileiro, só era visto de muito longe (a Globo podia ter colocado seus repórteres para trabalhar ali, e não na confortável área VIP).

Novesfora isso, foi emocionante ver o Rei cantando Copacabana Princesinha do Mar, de João de Barro, hino eterno composto lá nos anos 1940. O repertório foi abrangente, ainda que meio esquizofrênico: o coro de crianças carentes cantava uma pungente Noite Feliz aqui, e a bateria da Beija-Flor balançava atrás - legal presenciar Roberto dando um toque classudo ao overacting de Bruno e Marrone em Dormi na Praça. E, igualmente, o Exaltasamba dando um toque de sambalanço irresistível ao clássico Além do Horizonte. E foi de fato cortante quando o cantor expressou a saudade da mãe que idolatrava, Lady Laura, acompanhado por milhares de vozes.

De Emoções a Mulher Pequena, de Proposta a Côncavo e Convexo, tudo foi pensado para, de fato, presentear aquele fã que realmente adora Roberto Carlos. Na banda, havia uma cadeira sem um violão - Aristeu Reis, velho camarada do Rei, parece ter sido afastado por problemas de saúde mental. Sobrou para Paulinho, genro do Rei, fazer todo o acompanhamento. O samba-enredo da Beija-Flor tomou espaço demais e, cantado por Neguinho da Beija-Flor, foi um toque extemporâneo de marketing na noite - o prefeito Eduardo Paes, que patrocinou a noite, tocava chocalho para as câmeras. Entendo a euforia do prefeito, mas a Globo poderia ter dispensado esse toquinho chapa-branca.

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