Alegria e intensidade em equilíbrio com visão panorâmica

Crítica: Lauro Lisboa Garcia

O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2012 | 02h08

JJJJ ÓTIMO

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São muitas as afinidades de Zélia Duncan com Itamar Assumpção (1949-2003) na linguagem pop que agrega rock, reggae, funk, blues e folk. Ao longo da carreira, ela já gravou 11 canções do compositor paulista de Tietê, em que foi deixando "os rastros de sua importância" para ela.

Quando se apodera do cancioneiro do compositor, a cantora cultiva características próprias, trazendo-o para o universo dela sem desfigurar a essência. Adicionada ao pensamento musical como estética pop elaborada, entra o atrativo de sua voz calorosa e lapidada ("com certeza a melhor dicção feminina no Brasil", conforme Arrigo Barnabé), ao mesmo tempo em que mantém o frescor de uma certa espontaneidade, "itamarduncando".

Zélia disse que queria fazer de Tudo Esclarecido um disco alegre com as canções do Beleléu, mas como ela mesma reconhece, a alegria dele tem base na intensidade, jamais no oba-oba. Além dos citados gêneros e ritmos que a música de ambos têm em comum, nesse Itamar panorâmico de muitas facetas ela inclui, na base da intuição, até samba e um forró, Vê Se Me Esquece.

No papel de tradutora da música de Itamar para um universo maior, ela conta na sonoridade vintage desse álbum com outro artista notável pela capacidade de criar canções elaboradas com forte apelo popular: Marcelo Jeneci. A bela balada Mal Menor tem um ar de Roberto Carlos sessentista, em que se destaca o teclado do compositor e músico paulista. Como no trabalho dele, neste de Zélia quase tudo tem potencial para virar hit.

Outro cantor que, ao lado dela e Cássia Eller (1962-2001), também fez valer seu carisma no mundo pop para dar visibilidade à musicalidade e ao lirismo peculiares de Itamar, Ney Matogrosso canta com ela Isso Não Vai Ficar Assim, um xote com citação do clássico bolero Besame Mucho. O duo com Martinho da Vila é no saboroso samba inédito É de Estarrecer ("É de estarrecer / Estar e ser em inglês é a mesma coisa"), parceria de Itamar com a poeta Alice Ruiz, que assina a letra de outras quatro, incluindo a balada folk Não É Por Aí ("Agora é tarde / Não está mais aqui quem falhou").

Cabelo Duro, com citação de Berenice, ganhou suingue de sambalanço/gafieira. Outra canção ritmada de acento folk, Quem Mandou resulta como o mais expressivo mix do estilo dos dois. Em Zélia Mãe Joana, ela saboreia as palavras, à maneira canto-falada e sincopada do autor.

Com traçados paralelos, o espetáculo To Tatiando e o CD Tudo Esclarecido são visões peculiares de dois ícones da vanguarda paulista por um olhar detalhista de admiradora e cúmplice. Não é só chavão que abre porta grande.

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