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Alegria de pobre

Matthew Killingsworth é psicólogo de Harvard e criador do Track Your Happiness (www.trackyourhappiness.org), um projeto que utiliza smartphones e e-mails para avaliar a felicidade em tempo real, ao longo do dia. Durante cerca de um mês, a cobaia responde perguntas sobre o que estava fazendo em determinado instante e qual o grau de bem-estar auferido.

Vanessa Barbara, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2014 | 02h05

O resultado é uma série de gráficos que determina quais são as principais fontes individuais de felicidade em relação aos afazeres, o foco, as interações e a produtividade.

Meu relatório acaba de ficar pronto e fiz uma descoberta: sou mais feliz quando estou num ônibus. O aumento da minha satisfação pessoal é notável quando me encontro no interior de um coletivo, sendo comparável apenas à minha satisfação em restaurantes (média de 70%).

(É curioso perceber que minha alegria despenca para ridículos 25% quando estou em terminais ou pontos de ônibus aguardando a condução, e sobe uma infinidade de pontos porcentuais conforme galgo os degraus).

Realmente, não há maior fonte de contentamento nesta vida do que vislumbrar um 971M vazio vindo na sua direção, conseguir sentar no banco alto e abrir a janela para receber vento no rosto - ainda que seja um bafo seco de poluição e escapamento. Nada mais feliz do que passar velozmente pelo corredor de ônibus, ultrapassando automóveis parados com motoristas tristes em seu interior.

Por outro lado, não há nada mais depressivo do que tomar ônibus na hora do rush e ficar 50 minutos preso no tráfego da rua Voluntários da Pátria, de pé, prensada entre dois idosos e um beliche. Nada pior do que fila tripla no ponto e o ônibus que não chega nunca.

Há algumas semanas, experimentei o Paese (Plano de Apoio entre Empresas de Transporte em Situação de Emergência), que é acionado quando as estações de metrô da linha amarela fecham para obras. Nessas ocasiões, uma frota de ônibus atende aos passageiros no caminho entre as estações.

Naquele domingo, o Paese representou uma alta de 60% na minha alegria bruta: a fila era grande, mas corria rápido, pois havia inúmeros ônibus à disposição. Ninguém tinha de passar pela catraca nem pagar passagem. O esquema era eficiente: o coletivo abria as portas, pegava os passageiros e saía. Sem parar em nenhum ponto, o motorista singrou os corredores da avenida Rebouças como quem explora novos continentes; levou quinze minutos para ir do Largo da Batata até a Avenida Paulista.

A alegria, meus senhores, é um ônibus rápido e vazio, e isso foi comprovado por um cientista de Harvard em pesquisa com uma amostra representativa de mandaquienses (um).

Tanto que, agora, quando a tristeza começa a bater, meus entes queridos já não hesitam em agir em meu benefício: basta erguer o braço e acenar para o ônibus mais próximo.

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