Aldo Ciccolini em CD comovente

Disco de valsas do pianista italiano de 88 anos, lançado pelo selo La Dolce Volta, traz interpretações emocionantes

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2013 | 02h19

O veterano pianista italiano Aldo Ciccolini está com 88 anos. Nasceu em Nápoles em 1925, onde estudou com um aluno de Busoni. Aos 21 anos, quando já possuía uma carreira regional razoável, teve de tocar em bares para garantir o sustento da família. Mas, depois de ter ganho aos 24 anos o célebre Concurso Marguerite Long-Jacques Thibaud em Paris, virou francês de corpo e alma, especializando-se no repertório francês. Foi titular de piano do Conservatório de Paris por 18 anos, entre 1970 e 1988. De suas mais de cem gravações - quase todas para a EMI Classics - constam integrais das sonatas de Mozart e Beethoven assim como tudo que Erik Satie escreveu para piano. Também registrou em disco integrais de Janacek e Schumann.

Deveria estar aposentado, imaginam vocês. Longe disso. Um pequeno selo independente francês, açucaradamente intitulado La Dolce Volta, tem lançado CDs de Ciccolini com peças de Mozart. Em 2011, foram dois CDs só com Mozart, um compositor com o qual os pianistas mantêm uma intimidade maior à medida que envelhecem. É um momento da vida onde a técnica já pouco importa. Valem mais os sentimentos, o modo pessoal de tocar repertórios escolhidos com carinho, paixão mesmo.

Talvez seja este o motivo de seu CD mais recente, um disco plenamente autoral. Escreveu o pianista que há muito tempo acariciava a ideia deste disco. "Tinha muita vontade de misturar peças sérias com outras cantantes e populares." Pinçou, por puro gosto pessoal, 13 valsas variadas assinadas por 13 compositores. Certamente as que mais lhe tocam ao coração e à alma. E as interpretou com uma sensibilidade à flor da pele. Sabem quando Ciccolini gravou este CD? Em sessões na igreja luterana do Bom Socorro, em Paris, entre 21 e 24 de maio passado.

É impossível não se emocionar com este grande pianista revisitando melodias ora melancólicas, ora dançantes, que embalaram praticamente todos os seus 88 anos. Ele começa com Feuillet d'album, de Chabrier, engata com a Valsa em lá menor opus 34, no. 2, de Chopin. E em seguida uma peça rara que, para mim, é a jóia do disco: Viennoise, que Gabriel Pierné, maestro e compositor, chamou deliciosamente em francês de "suíte de valses et cortege blues" opus 49, bis. É um buquê de melodias dançantes muito saborosas, esvoaçantes.

Cabem em suas reminiscências pessoais Souvenirs, opus 71, no. 7 de Grieg, Je te veux, de Satie (sua especialidade) e Valse romantique de um compositor menor mas nem por isso menos encantador, Déodat de Severac. Sibelius e sua indefectível Valse Triste, Massenet, Fauré, Debussy e Brahms completam a viagem musical em três-por-quatro de Ciccolini.

Porém, a valsa mais rara do disco é a Kupelwieser-Walzer, bizarra parceria de Schubert com Richard Strauss. Quem conta esta história é o próprio Ciccolini: "Conheci um casal de austríacos há muitos anos. Ele chamava-se Schenker, e descendia do teórico da música Heinrich Schenker; ela descendia do pintor Leopold Kupelwieser, que foi grande amigo de Achubert. Ela herdou um manuscrito oferecido pelo músico a Kupelwieser. O casal, muito rico, possuía uma ilha no mar Adriático onde recebia muitos artistas. Richard Strauss foi um deles. Quando descobriu a melodia manuscrita de Schubert, decidiu harmonizá-la. São 2'45" banais, que valem mais pela historinha de Ciccolini.

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