Aldo Bonadei é disputado no mercado e ganha mostra de raros

Reconhecido pela crítica há anos, pintor terá exposição em São Paulo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

06 de novembro de 2013 | 18h52

Desde 2006, quando o Museu de Arte Contemporânea (MAC/USP) prestou homenagem ao seu centenário de nascimento, o pintor Aldo Bonadei (1906-1974) não tem sua obra exibida em São Paulo. Além dessa retrospectiva, sua última individual póstuma foi em 1996, na Galeria Dan. Grande nome do histórico Grupo Santa Helena, Bonadei sempre foi reconhecido pelos críticos, mas não teve a projeção de seu amigo Volpi. Com a valorização da obra do artista no mercado, próxima do patamar de Volpi, Bonadei ganha uma exposição à altura de seu arrojado trabalho, pioneiro na abstração no Brasil. Ela será aberta hoje, na Galeria de Arte Almeida & Dale, com 40 telas pertencentes a colecionadores particulares, das quais apenas 11 estarão à venda. São pinturas realizadas entre 1930 e 1973, expostas ao lado de objetos usados como modelos pelo artista e roupas que ele desenhou e hoje pertencem ao Museu da Moda do Rio.

Bonadei, como lembra a curadora da mostra, Denise Mattar, era um homem modesto que sobrevivia auxiliando a mãe em sua oficina de costura. Viveu da pintura apenas nos últimos anos de vida. Talentoso, chegou a desenhar figurinos para uma montagem da revolucionária peça Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, e de dois filmes de Walter Hugo Khouri (1929-2003), Fronteiras do Inferno e Na Garganta do Diabo (ambos de 1959). Sexto filho de uma família de italianos que se fixou no Brasil no fim do século 19, Bonadei mostrou interesse pela pintura desde os nove anos, recebendo da mãe suas primeiras tintas e pincéis. Aos 17, começou a estudar com o acadêmico Pedro Alexandrino, realizando sua primeira individual aos 23, numa sala alugada na Rua São Bento. Em 1930, a família se mobilizou e mandou o garoto estudar na Academia de Belas Artes de Florença. Bonadei frequentou o ateliê do diretor da instituição, Felice Carena (1879-1966), pintor profundamente marcado por Cézanne e Matisse.

Essa influência dos franceses foi absorvida pelo aluno – e é nítida em muitas das telas expostas na galeria Almeida & Dale, que tem em seu acervo algumas do último período (anos 1960 e 1970). Entre os colecionadores que cederam obras para a mostra estão conhecidos proprietários de pinturas de Volpi, como Ladi Biezus e Marco Antonio Mastrobuono. O último, que conviveu com o artista, tem duas naturezas-mortas de 1968, ano decisivo na produção de Bonadei, por marcar, segundo a curadora Denise Mattar, uma virada na ordem cromática de sua paleta. “As cores ficam mais vivas e fortes”, observa, apontando a tela Dia e Noite .

A tela em questão é um bom exemplo da fusão de dois gêneros que marcaram a pintura de Bonadei: a natureza-morta e a paisagem. Nesse paisagismo feito de sobreposições e fragmentação cubista, a densidade da cor e o rigor da composição definem uma personalidade inquieta, que se renova amalgamando o espaço externo (a paisagem urbana) com o interno (a natureza-morta). O crítico Mário Schenberg, numa avaliação feita quatro anos após a morte do artista, afirmou que o conjunto das naturezas-mortas constitui o centro da obra de Bonadei, destacando a sua inclusão na paisagem urbana através da janela. Trata-se de um olhar para o mundo próximo ao de Vermeer, no sentido de uma integração com o ambiente externo a partir do interior da casa, bem diferente de Goeldi, o primeiro a intuir que público (a rua) e privado (a casa) confundem-se de forma promíscua no Brasil.

Surpreende que, além disso, Bonadei tenha ousado dar forma ao som, como mostra uma tela de sua série Impressões Musicais (1944), época em que frequentou o Grupo de Cultura Musical (do médico e colecionador Adolpho Jagle) e reuniões na casa do psiquiatra e crítico Osório. A exemplo de Paul Klee, igualmente um pintor melômano que buscou uma correspondência analógica entre som e imagem, ele descobre o potencial da pintura abstrata nessa época, antecipando em alguns anos o advento da abstração no Brasil pós-Bienal.

“Contudo, não há em Bonadei essa relação dicotômica entre abstração e figuração”, observa a curadora Denise Mattar, evocando o retorno, no fim da vida do artista, às origens de sua pintura figurativa, marcada pelas lições realistas de Pedro Alexandrino. Se a descoberta do espaço musical mostrou ao artista “coisas que a realidade não mostrava”, como atestou na época, as composições híbridas, de 1968 em diante, submetem a perspectiva a uma lógica subjetiva, lírica, sem desprezar o modelo real.

Os objetos que pinta, no entanto, são apenas pretextos, como na pintura de Morandi. A experiência da abstração prevalece, mas, como lembrou Schenberg, em 1978, a “tensão constante entre o lirismo de Bonadei e a sua vontade de contenção” caracteriza toda a arte do pintor. E essa contradição, conclui, pode ser encontrada em todas as suas fases.

ALDO BONADEI

Galeria Almeida & Dale. R. Caconde, 152, 3887-7130. Abertura, 19h, para convidados. Visitas agendadas: 2ª a 6ª, das 9h às 19h.

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