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Ignácio de Loyola Brandão
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Alcione voltou em um balão roxo

PASSO FUNDO - Não se sabe vindo de onde, o balão roxo surgiu no palco e pairou no ar próximo aos debatedores. Um balãozinho comum de aniversário de criança, desses que, quando se larga o barbante, imediatamente sobem, levados pelo gás. Não imaginávamos de onde tinha vindo (teria sido das Jornadinhas, onde haviam milhares de crianças?), apenas acompanhamos sua trajetória a um metro de altura, mantendo altitude estável, diria um comandante de avião. Na mesa, Roberto DaMatta, José Castello e Marcelino Freire falavam sobre trabalho, autonomia e consumo, o terceiro encontro da Jornada Nacional de Literatura.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2013 | 02h13

O balão pareceu nos contemplar por um instante, depois se encaminhou até Roberto DaMatta que o acariciou, meio perplexo. Então, ele voltou, passou por Luciana Savaget que o apanhou e com um lápis de olhos desenhou boca, olhos e sobrancelhas.

Livre, o balão passou por mim e parou. Brinquei: "Fique aí, quietinho". Para espanto dos debatedores e surpresa dos assistentes, ele se afastou e se imobilizou a um metro de distância. Assim permaneceu até o final do debates. Quando as perguntas do público começaram, ele desapareceu. Luciana sussurrou: "Tenho certeza que era o Alcione". No dia seguinte, o jornal O Nacional, tradicional na cidade, publicou a foto do balão imobilizado com o comentário de Luciana.

Durante dez anos, Alcione Araújo, teatrólogo, cronista, ensaísta, participou da coordenação dos debates da Jornada. Carismático, com sua voz de baixo, seu humor (ou irritação), era invejável a sua capacidade de apanhar as falas dos debatedores, filtrando-as e devolvendo-as mastigadas ao público. Um homem amado pelas plateias, pelos organizadores, até o coração pregar uma peça e levá-lo no ano passado. Quando subimos ao palco, na abertura da Jornada, semana passada. Luciana, magra, linda, desenvolta, e eu estávamos esvaziados. Havia um vácuo que foi sendo dissolvido pela energia que vem, sempre veio, daqueles cinco mil assistentes. Quando o balão roxo surgiu e ali ficou, tivemos certeza, que ele, Alcione, tinha vindo nos dizer "alô, está indo tudo bem".

Impossível não sequestrar uma frase de Diana Corso, psicanalista que escreve aos domingos na Zero Hora, de Porto Alegre: "A comoção, óbvio, foi geral. Estávamos frente a uma aparição, uma alusão lúdica, que naquele momento fazia o papel de fantasma. Para alguns, muitos desses achados são manifestações de um espírito que nos observa e pode se comunicar. Para mim são conjugações do luto, momentos em que a dor se materializa, fica visível. Fizemos do fortuito, como no caso do balão roxo, o solene embaixador da ausência de Alcione".

A Jornada é um Airbus comandado por Tania Rosing de dois em dois anos. Nenhuma outra tem tamanho conteúdo, tanta participação. Há muitas pela Brasil que são lambidas gulosamente pela mídia, porém a maioria se encerra no momento em que o último convidado falou. Passo Fundo, quando a Jornada fecha, está apenas se reiniciando, se multiplicando. Imaginem 101 escritores convidados, falando no palco principal, nas tendas da Jornadinha para 18 mil crianças, mais painéis, oficinas, aulas, seminários, cafés literários, 23 exposições. Teóricos e ensaístas vieram da Espanha, Portugal, Polônia, Itália, Estados Unidos, México, Colômbia, Chile, Equador, Argentina.

DIVERSIDADE

Se Walcyr Carrasco (Amor à Vida) dissecou a linguagem das telenovelas, Emicida e Sergio Vaz trouxeram a linguagem das ruas. O sexo, o corpo e o afeto foram debatidos por Miriam Goldenberf, Diana Corso e Laura Muller. Uma das sessões que mais suscitaram perguntas. Porque as três têm muita bala na agulha. Sabe-se muito e pouco se sabe, precisamos de mulheres como essas. Guto Lins e André Vianco abriram o horizonte explicando a transmídia. Olhem que andei e ando Brasil afora, mas poucas vezes vi o público sentado pontualmente a cada sessão e a plateia lotada de ponta a ponta.

A Jornada começou com chuva e frio de zero grau. Ninguém se incomodou, todos se encasacaram, se protegeram e centenas levaram a cuia de chimarrão para elevar a temperatura. Com o passar do tempo, veio o sol e, no sábado de encerramento, suava-se no palco. Mesmo não sendo uma feira de livros, não ouvi uma só reclamação dos autores que venderam e assinaram, assinaram. Se é verdade, como dizem certas tribos africanas e mesmo brasileiras, que a fotografia leva a nossa alma, nessa altura pelo menos 101 escritores estão "desalmados". Até essa questão foi levantada, a da imagem, a da comunicação via digital.

A Jornada não para. Ela se inicia nos encontros ao café da manhã nos vários hotéis. Anos atrás, os participantes ocupavam um só hotel, o São Silvestre. Aos consumistas, alerto, as lojas têm roupas de inverno a preços ótimos. Não se pode perder também a feira da terra, aos sábados, no centro, com salames e grande variedade de queijos deliciosos. O dia sempre terminava no centenário Clube Comercial, que nos lembra a época áurea dos bailes ao som de big bands. Da cozinha de Lizete, Alcir Biazzi e Serafim Lutz chegavam saladas de camarão, de folhas verdes, peras e roquefort, de atum e peito de peru, massas regadas a diferentes molhos e havia salmão, bacalhau, peixes, carnes e os filés e sempre dois ou três pratos regionais. O serviço era perfeito, mesmo tendo 400 pessoas no salão ao mesmo tempo. Quanto a mim, procuro sempre o setor das mesas servidas pelo Octavio, cuja experiência e maneira de ser o fazem digno de um Fasano, de um Copacabana Palace.

Nas últimas jornadas, nos acostumamos a entrar no clube indo direto ao pianista: "Play again, Paulo", como no filme Casablanca (1). Paulo Caruso, o iluminado cartunista, vem sendo responsável pela documentação iconográfica/humorística das Jornadas. Este ano, ele tocou, tendo como crooner Roberto DaMatta, que foi de Tony Bennet a Frankie Laine, passando por Nat King Cole. Sim, Da Matta, o antropólogo que aqui escreve às quartas-feiras, podia estar no The Voice.

**(1) Na verdade, a frase nunca existiu, os cinéfilos sabem.

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