Alcides Nogueira entrevista filha de JK

A pedido da Agência Estado, Alcides Nogueira, autor da minissérie JK ao lado de Maria Adelaide Amaral, fez algumas perguntas para a arquiteta Maria Estela Kubitschek Lopes, de 63 anos. Filha adotiva de Juscelino e Sarah, ela entrou para o clã após o nascimento de Márcia, filha de sangue do casal. A partir do ponto de vista de quem cresceu como uma legítima Kubitschek, Maria Estela conta detalhes das experiências e da convivência com a família que a acolheu e amou. Na trama, será vivida pela atriz Samara Felippo. Alcides Nogueira - Qual a lembrança mais bonita que você tem de JK? E a recordação mais sofrida? Maria Estela Kubitschek Lopes - São tantas as lembranças, mas uma das mais bonitas é a de meu pai nos levando para Brasília, para acompanharmos a construção dela. A gente via o amor que ele tinha pelo que estava fazendo ali. Ele também nos levava pelo Brasil afora, sempre que pudesse. Nossa geração ia muito para o exterior, mas meu pai dizia: o que adianta conhecer o mundo se você não conhece o próprio País. Uma das recordações mais sofridas foi o dia da sua cassação. Eu vi o sofrimento dele naquele momento. O exílio também foi triste. Quando levei meu filho João César, que tem o nome do meu avô, até meu pai em Paris, parece que estava lhe levando vida, como se levasse um pouco do Brasil no sorriso do meu filho. Ficamos lá mais de um mês. Quando fomos embora, me senti roubando a alegria dele. Acho que o momento do exílio foi mais triste que o da cassação. Como foi para você, em plena juventude, já namorando o Rodrigo Lopes, sair da efervescência do Rio de Janeiro e ir morar em Brasília? Você se acostumou logo com a cidade construída por seu pai? Brasília sempre fez parte da nossa existência, da minha fase de juventude. A gente vivenciou a cidade. E constantemente, Rodrigo ia com a gente até lá. É lógico que sentia falta do meu namorado, mas nunca achei que Brasília me afastava dele. Não nos mudamos para lá no início de sua construção. Só ficamos mais tempo depois de sua inauguração, pois o governo foi transferido para lá. Moramos mesmo de 1960 a 61. A gente tinha muitas atividades, ajudávamos papai a receber visitas oficiais. Ele saiu pouco do Brasil, mas recebia muita gente de fora. Eu adorava Brasília, lá nunca me chateou. Márcia desenvolveu uma grande paixão pelo balé. O que despertou um grande interesse em você? Sempre fui fascinada por tudo, estava descobrindo o mundo, mas minha tendência era mais musical. Piano, violão. Minha mãe biológica sempre gostou muito de música, tocava violão. Como você acha que seria um segundo (e quase certo) mandato de JK na presidência da República? Acho que seria como ele havia planejado. Ele preparou o Brasil para o crescimento. Desenvolveu a indústria automobilística, o Nordeste, construiu a capital. Suas metas eram a educação e a agricultura. As duas áreas acabaram se desenvolvendo, mas acho que com meu pai andaria mais rápido. Ele conseguia motivar as pessoas para que as coisas acontecessem. O trabalho social de dona Sarah foi importantíssimo. Você chegou a tomar parte nele? Se sim, fazendo o quê? Mamãe começou o trabalho já em Minas. Era um grupo de voluntárias, que trabalhava com crianças pobres, realizava festas beneficentes para arrecadar fundos, que eram revertidos para ajudar ambulatórios, escolas públicas... No Rio, ela criou as Pioneiras Sociais. Ela nos puxou, eu e Márcia, a participar dessas atividades. Acompanhávamos mamãe, como na vez que ajudamos a distribuir mais de 200 mil cestas básicas para famílias no Estádio Maracanã. Mas não éramos forçadas a isso. Você só continua a fazer se é motivada. E eu continuo a realizar trabalhos sociais até hoje. O Brasil inteiro cantou "Presidente Bossa-Nova", do Juca Chaves, onde você e Márcia eram citadas. Como era isso para você? Divertido? Chato? Achava o máximo. A gente aprendeu com o papai, que era um democrata, a aceitar críticas. Juca era músico, uma pessoa crítica. O "Voar, voar, voar, voar, voar pra bem distante, até Versalhes onde duas mineirinhas valsinhas dançam como debutante interessante!" que ele trazia na letra, éramos nós mesmas (risos). As críticas pejorativas, o Lacerda xingando meu pai, isso sim incomodava... Na opinião de brasileira, e não somente de filha, qual foi o grande legado de Juscelino ao Brasil? Foi acreditar na capacidade do povo, no potencial das pessoas. Que a gente pode conquistar tudo aquilo em que acreditamos. É nisso que a gente precisa acreditar agora. O povo está descrente. A partir do momento que você não respeita os outros, não se respeita. Uma lição que minha mãe deixou: a responsabilidade do pobre é do governo, mas é minha também. E o que eu estou fazendo? Meu pai era alegre, tinha esperança, achava que as coisas eram possíveis e que o povo brasileiro tinha capacidade de realizar.

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