Álbuns de família

Ímã Galeria expõe os trabalhos de Walter Firmo, o fotógrafo brasileiro condecorado com a Ordem do Mérito Cultural

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2012 | 03h11

É de Walter Firmo a famosa foto de Pixinguinha na cadeira de balanço, assim como a de Pelé numa perna só, como um saci do futebol. Conheceu Ari Barroso, Tom Jobim e outsiders da MPB, como o grupo Paulo Bagunça e a Tropa Maldita. Atravessou três gerações de boemia brasileira, mas é só ele farejar um momento épico para os corintianos no Pacaembu que ele desce do táxi que o traz de Congonhas e sai fotografando a procissão de torcedores.

Aos 74 anos, condecorado com a Ordem do Mérito Cultural pelo então ministro Gilberto Gil, Walter Firmo é um dos mais importantes fotógrafos brasileiros do último século - e continua sendo neste. Sua arte mais intimista, mais focada na história pessoal, a família e as paixões, foi objeto de uma seleção do curador Egberto Nogueira reunida na mostra Luz em Corpo e Alma, que será aberta domingo, às 14 h, na Ímã Foto Galeria. Carioca de Irajá, Firmo também foi objeto de um pequeno documentário de Nogueira, com depoimentos sobre a sua trajetória.

"Eu sou um mulatinho de Irajá", conta Firmo, para quem há duas maneiras de entrar no Rio de Janeiro, sua terra natal: uma, pelo Galeão, para ir ao Leblon, a Copacabana, a Ipanema. A outra é pelo subúrbio, pelo trem, para encontrar o samba, a música, a alegria. É a esse segundo território que ele credita sua grande motivação artística. Chama a Floresta da Tijuca de "meu Éden". Foi assim que começou, tentando "trabalhar essas engendrações de criança", e assim se tornou um monstro da fotografia nacional.

Os pais foram rigorosamente contra sua opção. Mas ele insistiu. "Quero ser político, quero transmitir pensamentos, idealizar, quero politizar", berrou. As 26 imagens dessa coleção mostram Walter inventariando esse universo particular, sambistas embarcando no trem de subúrbio para o carnaval, retratos familiares, negros, brancos, mestiços. "Tem uma pedra, tem uma fantasia, tem um céu azul, eu tenho interesse", diz Firmo, sobre suas motivações estéticas.

Viveu ao lado dos pais longamente, até a morte destes, quando tinha perto de 65 anos. "Me senti órfão", diz. Tem uma foto ao lado do pai na qual reconstitui uma cena de um famoso quadro do pintor Guignard. Vive e trabalha em Copacabana.

"Ele é amoroso com o Brasil, acredita na beleza da vida e é orgulhoso da própria produção, não tem falsa modéstia. É um dos grandes fotógrafos brasileiros", afirma o colega Juvenal Pereira, amigo de Firmo. Pereira acha particularmente heroica também a forma como Firmo, mesmo veterano na profissão, não para de produzir e transmitir seus conhecimentos. "Vai a Cuba, vai a Paris, vive dando workshops. É um poeta da luz, meu parceiro", afirma.

Cada uma das 26 imagens de Firmo expostas na Ímã Galeria (cuja abertura, na Feira da Vila, no domingo, terá uma big band para animar, a Zerró Santos Big Band Project) terá tiragem de 20 cópias impressas na galeria, limitada e exclusiva à venda.

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