Álbum que originou concerto é raridade

O disco mais detestado do rock, o álbum duplo Metal Machine Music foi concebido por Lou Reed como um deliberado suicídio comercial, em 1975. O livro The Worst Rock "n" Roll Records of All Time (Os Piores Discos de Todos os Tempos, de 1991), de Jimmy Guterman and Owen O"Donnell, o colocou em número dois da lista. Por uma dessas ironias da História, tornou-se um culto planetário - o álbum em vinil, original, pode custar mais de US$ 100 em lojas.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2010 | 00h00

"Paixão - realismo. Realismo era a chave. Os discos eram cartas. Cartas reais de mim para outras pessoas", diz o manifesto de Lou Reed, no encarte do trabalho. Ele se interessou por aquilo que estava sendo conhecido como heavy metal, mas queria outra direção, porque aquela era "sem dúvida difusa, obtusa, fraca, enfadonha e ultimamente constrangedora".

Foi assim que chegou à ideia de "simetria, precisão matemática, obsessão e acuidade de detalhes que tinham, ainda por cima, a vasta vantagem que oferecem os "modernos compositores eletrônicos"". Considerando-se a época, foi um escândalo. Lou Reed, acostumado a nadar contra a corrente, parecia apenas se divertir com a reação. Chegou a dizer, ao famoso crítico Lester Bangs, que no meio dos 64 minutos de distorções, tinha intencionalmente inserido alusões à música erudita, como a Eroica e as Sinfônias Pastorais, de Beethoven.

O disco tem notações espalhadas pela capa e contracapa, como uma espécie de "bula". A descrição das geringonças que resultaram no trabalho sonoro termina como um poema concreto: "No panning. No phasing. No". E vai além: "Dextrorotory components synthesis of sympathomimetic musics", diz um trecho. Acima da capa, referência à master do disco na gravadora RCA. A sensação de ouvi-lo, 35 anos depois, é dupla: ou o ouvinte se sente vítima de uma piada, ou sente que é um ato de coragem artístico. "É como se ele tivesse dormido em cima do teclado ligado e depois mandou a fita para a gravadora", disse um lojista de São Paulo, ao vender sua última cópia de vinil à reportagem.

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