Álbum de HQ "premia" leitores com mais de 30 anos

Como diz aquele rap, a realidade é muito triste para quem está na casa dos 30 anos e passou a infância e a adolescência lendo histórias em quadrinhos. A época da inocência era bem servida de conflitos envolvendo super-heróis ou pela escatologia underground, mas seguir nessa toada após os 30 anos...O lançamento do álbum de HQ "Front" vem para redimir os balzaquianos aficionados por quadrinhos. Não se trata, porém, de um simples preenchimento de folhas em branco. Além de reunir em seu entorno quadrinistas brasileiros de fino traço, a publicação decreta algo espinhoso já no primeiro número disponível nas livrarias. ´Fomos enrolados: a arte nunca existiu´ é a afirmativa estampada na capa. "Esse foi o tema incidental da edição", diz o quadrinista Kipper que, ao lado de Moranguini e Orlando, edita informalmente o álbum. "Não há aquela idéia conhecida e tirana de edição, com alguém compilando material pronto e artistas com obras intocáveis", conta.Ainda que tenha migrado do suporte virtual para o impresso, o modus operandi da Front remete ao velho coletivismo. Os artistas envolvidos discutiram via e-mail o ´engano´ da arte e só depois foram às pranchetas. O resultado é uma reflexão do fazer cartoons ou quadrinhos pontuado até mesmo pelas farpas incômodas da autocrítica. "Com a chamada era do fim das ideologias, o artista se impregnou de cinismo."Nesse sentido, as histórias Story Crime e Página Dois são bastante ilustrativas. Em Story Crime, Maxx narra a história de um desenhista freelancer de storyboard que comete assassinatos para ter mais trabalho. Página Dois, roteiro de Marcelo Andrade e desenhos de Spacca, explora as relações parasitárias e sentimentais entre um cartunista e sua vítima constante: um político corrupto.A história de Custódio ensina que, em terra de cego, quem tem um olho é mentiroso. Moringoni voa alto a bordo de ´aeroboero´ sem perder o fôlego, em Anjo Caído. Em Democracity, Kipper faz uma alegoria muda dos extremos "opressão e transgressão". O artista aparece também em anúncios antipublicitários. Caco Galhardo sustenta a tese de que o filósofo Rousseau fazia uso recreativo de marijuana em Rousseau. A reflexão filosófica continua com Cau Gomez e Pepe Casals colocando Friedrich Nietzche num campo de golfe.Em Feliz, Fabio Zimbres satiriza a bom coração e coloca os burocratas da comunicação em papel vexatório. A publicação é trimestral e o próximo número, com a participação de bons desenhistas como Luiz Gustavo e Lourenço Mutarelli, chegará às livrarias em agosto. Os trintões podem comemorar, Front é coisa fina.

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