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Humberto Werneck
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Álbum de família

A menos que as coisas por lá tenham mudado muito, não convém, em Cuba, levar a curiosidade ao terreno da vida pessoal de Fidel Castro. Além de ser campo minado, pois nunca se sabe com quem se está falando, esse é um assunto liminarmente classificado como chisme, nome local da fofoca. Nas numerosas vezes em que visitei o país, lembro-me de ter estado em rodas nas quais se falava do Comandante sem que seu nome fosse pronunciado. Dizia-se El Tío, El Papá, El quien tu sabes, ou se fazia um gesto de mão descendo por imaginária barba.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2016 | 05h00

Não recomendo, portanto, indagar onde é que Fidel manda comprar aqueles agasalhos Adidas. Muito menos perguntar onde é que mora. Imagino que a informação seja do conhecimento de boa parte dos cubanos, mas é dessas coisas que a prudência aconselha não saber. Mesmo com amigos, jamais obtive a mais vaga pista do endereço do presidente aposentado, nem por isso inativo, Fidel Alejandro Castro Ruz, que em 13 de agosto chegará aos 90 anos de idade, dos quais 57 como mandachuva.

À míngua de informações, meu temperamento eventualmente turrão me desafiou a mapear por conta própria o que, num artigo de revista, chamei de A Havana de Fidel. Sem a mais remota vocação de agente secreto, ainda assim acabei chegando, para começar, ao edifício Andino, no n.º 1.218 da Calle San Lázaro, no bairro de El Vedado.

Nenhuma placa informa que naquele prédio de 5 pavimentos funcionou um hotel modesto, e que em 1948 um quarto no 2.º andar acolheu um ainda imberbe aluno de direito, recém-casado, aos 22 anos, com uma filha da alta burguesia, a estudante de filosofia Mirta Francisca de la Caridad Díaz-Balart y Gutiérrez, de quem se divorciaria em 1955, não sem antes lhe dar um filho, para sempre condenado ao diminutivo Fidelito.

Menos esforço teve este arremedo de Sherlock para localizar outro endereço do Comandante, também no Vedado: o Habana Hilton, hotel que, arrebatado aos gringos em 1960, passou a chamar-se Habana Libre, atual Tryp Habana Libre. Foi ali que o guerrilheiro Fidel se arranchou por 3 meses, em seguida à apoteótica entrada na capital, dia 8 de janeiro de 1959. A partir de então, teria passado a residir em mansões que a Revolução expropriou da burguesia.

Em algum momento, na mais espessa discrição, Fidel Castro começou a frequentar o prédio n.º 1.007 da Calle 11, onde, murmuram chismosos, teria vivido o grande amor de sua vida, com a legendária Celia Sánchez, amiga desde os tempos da guerrilha e, no poder, a mais próxima conselheira. A única pessoa, há quem afirme, autorizada a lhe dizer umas verdades. Não deixou marcas apenas no seu coração, mas também na paisagem de Havana: partiu dela a ideia de criar a Coppelia, sorveteria que ocupa uma quadra inteira no Vedado. Nostálgico, Fidel seguiu frequentando a garçonnière revolucionária mesmo após a morte de Celia, em 1980.

Ao mesmo departamento amores clandestinos pertence o pouso em que, no ano de 1955, recém-saído da prisão da ditadura Batista e prestes a subir a Sierra Maestra, Fidel ardeu em paixão nos braços de Natalia Revuelta, a Naty, bela e jovem esposa de conhecido médico de Havana.

Agora que a socialite socialista já não está entre nós, só o amante poderia nos dizer onde fica o ninho em que o intenso fogaréu carnal resultou na concepção de Alina Fernández Revuelta, única mulher entre os 8 filhos de Fidel. Indagada sobre isso numa entrevista que me deu para a Playboy, em 1995, a moça ficou devendo a informação. Em compensação, topou sem titubear o convite que lhe fiz para posar pelada, operação que, sob impermeável segredo, culminou em dois dias de fotos numa suíte de hotel em Roma, em 1998. Quando, porém, o fotógrafo J. R. Duran empinou seu aparato, Alina já desencanara, e foi de má vontade que se limitou a cumprir o contrato, com semblante tão pouco apetecível que a direção da revista decidiu abortar o ensaio.

Se consultado, este negociador teria defendido a publicação das fotos, quando menos pela certeza de que, com exceção do cubano Granma e do Osservatore Romano, da Santa Sé, a nudez da moça haveria de ressoar na imprensa em todo o mundo, menos por eventual apelo erótico do que pelo valor político agregado às imagens. Como não me foi pedido sigilo, em 2004 resolvi contar a história numa crônica, O dia em que tiramos a roupa da filha de Fidel Castro, publicada na revista Mitsubishi e neste Caderno 2. Seis anos mais tarde, em matéria para a revista Alfa, Ricardo Setti acrescentaria uma fartura de informações ao episódio, por ele vivido na condição de diretor da Playboy. Teve, então, a humildade, um tanto rara entre jornalistas, de reconhecer que teria sido o caso, sim, de desvendar as prendas da filha do Comandante. Pena que, por força do distrato, as fotos tivessem sido passadas na tesoura.

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Fidel e suas pegadas em

Havana. E a filha dele, pelada

para a ‘Playboy’ brasileira

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