Álbum carece de ousadia e há excesso de bom-mocismo

Em 'Viva Duets', cantor faz duetos com Maria Gadú e Ana Carolina

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2012 | 03h09

Crítica: REGULAR

Nem Ana Carolina nem Maria Gadú, tecnicamente falando, são cantoras desprezíveis. Seus repertórios e overacting interpretativos é que são de doer. Mas se Tony Bennett as escolheu, vamos ver no que vai dar.

Ana Carolina se saiu bem melhor, em The Very Thought of You. Seu derramamento casou até que bem com a precisão de Tony. Bem bonitinho o final da canção, com Tony e Ana Carolina cantando juntinhos a palavra "amor" em português.

Já Maria Gadú parece um pouquinho intimidada em Blue Velvet, cantando os versos em português do clássico, numa versão de Cesar Lemos. "De veludo azul se revestiu meu coração, mais do que o azul do seu olhar, a tua boca a suspirar, um querer". Pode, até por um acidente da natureza (como o dueto de Vanessa da Mata e Ben Harper), tornar-se um hit, pela própria imperfeição.

Os outros latino-americanos alternam maus e maus momentos. O dueto com Dani Martín, em Are You Having Any Fun?, é estridente e ardido, e Martin não é lá um crooner de estilo marcado. The Way You Look Tonight não foi suficiente para transformar Thalia numa cantora. Ela parece que está miando, não cantando, uma coisa meio Gretchen.

Gloria Estefan, em Who Can I Turn To (When Nobody Needs Me), parece que não vai conseguir terminar o dueto. Marc Anthony, em For Once in My Life, parece que não tem o menor envolvimento com o que está cantando. Frio como gelo.

É de fato um perigo emparelhar a voz com um intérprete do tamanho de Tony, que sempre faz questão de encontrar seus parceiros e fazer a coisa de verdade. Dessa vez, as gravações foram realizadas em Fort Lauderdale, em Nova York e na casa do famoso cantor mexicano Vicente Fernández, um rancho em Guadalajara. Todas as faixas são do repertório costumeiro de Tony, com a exceção do dueto com Vicente Fernández, que inclui uma versão em inglês e espanhol da música Return To Me, originalmente gravada por Dean Martin. O time que comparece no álbum inclui Marc Anthony, Ricardo Arjona, Chayanne, Franco de Vita, Gloria Estefan, Vicente Fernández, Juan Luis Guerra, Dani Martín, Romeo Santos, Thalía e Vicentico.

Há ausências latinas que preencheriam uma grande lacuna, como um Jorge Drexler, um Fito Paez. Roberto Carlos não ter gravado com Tony é um problema maior do que de agenda, parece. Não é explicável, seria um encontro de dois crooners exponenciais em duas culturas diferentes.

O segundo disco de duetos de Tony, com Amy Winehouse, Lady Gaga, Norah Jones, também tinha uma vantagem grandiosa sobre esse aqui: não era tão coalhado de bom-mocismo. Tinha um tempero de bandidagem. Tony podia ter ido atrás de alguns crooners mais venenosos aqui da nossa área, um Charly Garcia, um João Gilberto, quem sabe até um Tony Platão? Imaginem, Tony Platão e Tony Bennett, que doideira? Ou Tony Bennett e Jorge Mautner? Mas é um álbum que não vai ficar pela ousadia, uma pena.

Notícias relacionadas
Mais conteúdo sobre:
Tony Bennettshowmúsica

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.