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Alberto Mussa reconstitui, em livro, o primeiro crime ocorrido no Rio

O policial 'A Primeira História do Mundo' é ambientado na Rio de Janeiro de 1567

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

16 de maio de 2014 | 20h40

O corpo de um homem aparece morto em uma praia do Rio de Janeiro. A primeira suspeita é de crime passional, uma vez que a mulher da vítima interessava a diversos cidadãos da cidade, nobres ou não. Surgem, assim, diversos suspeitos. Esse é o fio da meada do novo romance de Alberto Mussa, A Primeira História do Mundo, que a editora Record lança na sexta-feira. 

Seria a premissa de mais um romance policial contemporâneo não fosse a época em que a trama é ambientada: o Rio de Janeiro de 1567, ou seja, quando a cidade tinha apenas dois anos de idade e contava com pouco mais que 400 moradores. O mais surpreendente é que, entre acusados e testemunhas, as investigações envolveram espantosos 15% da população.

Inspirado em um fato real, o livro dá continuidade a um projeto elaborado por Mussa de compor um compêndio mítico do Rio de Janeiro. Serão cinco novelas policiais, uma para cada século da história carioca. Começou com O Trono da Rainha Jinga, cuja ação se passa em 1626, continuou com O Senhor do Lado Esquerdo, que parte de um crime cometido em 1913, e agora tem prosseguimento com A Primeira História do Mundo.

“Mais que desvendar o crime em si, o que de fato interessa é compreender as razões que levaram as autoridades do tempo a suspeitarem de tanta gente e considerarem a mulher da vítima como único motivo do crime”, explica Mussa. “O romance investiga, na prática, a mentalidade de uma época, não apenas a identidade do assassino.”

O grande trunfo, de fato, está na opção feita pelo autor para conduzir a narrativa. Mussa adotou o que se pode chamar de romance opinativo, reflexivo, em que o narrador tempera a ação com palpites e avança na trama lado a lado com o leitor de forma que ambos raciocinam juntos até desvendar o crime. “Só o romance tem essa impressionante capacidade de incorporar todo tipo de discurso, de canibalizar os outros gêneros. Para mim, essa envergadura narrativa é particularmente importante porque minha formação é de teórico, de ensaísta; mas minha índole é a do contador de histórias”, observa Mussa.

E a forma como se desenrola A Primeira História do Mundo é, realmente, convidativa. O assassinado, por exemplo, é um serralheiro, portanto, membro de classe humilde. Sua mulher é uma desejada mameluca, ou seja, filha de índio e branco, o que a rebaixa ainda mais na hierarquia social. Entre os suspeitos do assassinato, estão homens de posses que, por motivos diversos, não se convenceram de perder a garota para um trabalhador braçal.

Assim, o motivo do crime, seja qual for o autor, é de natureza sexual, o que também marca os outros dois romances de Mussa. “Certa linha antropológica acredita que a primeira instituição social da humanidade foi o incesto. Eu defendi, ficcionalmente, em O Movimento Pendular, que, em vez do incesto, tal instituição teria sido o adultério”, comenta Mussa. “Seja adultério ou incesto, o fato é que o conceito de sociedade deriva de um conflito sexual. Não há sociedade humana se não houver alguma espécie de controle sobre as relações sexuais. O sexo é o grande problema humano. Portanto, naquele Brasil original, quando os portugueses interpretaram a liberdade sexual, o homossexualismo e a nudez indígenas como perversão moral ou de inspiração demoníaca, os conflitos sexuais assumiram uma importância exorbitante. Particularmente numa cidade como o Rio de Janeiro de 1567, onde havia mais homens que mulheres. O romance tenta mostrar que foram esses ‘fantasmas’ que conduziram a investigação do crime, não as evidências.”

E as suspeitas que ora surgem, ora caem, são as mais interessantes ao longo da trama. O corpo do serralheiro, por exemplo, é encontrado na praia crivado com sete flechas, mas, o laudo médico vai comprovar depois, a causa da morte foi uma oitava flechada, que atingiu o rim. Misteriosamente, porém, essa foi a única flecha retirada do cadáver.

O uso dessa arma incriminaria, inicialmente, os índios que, à época, viviam aos montes e distribuídos em várias tribos. Os tamoios, no entanto, que ali habitavam, tinham o, digamos, hábito de estourar o crânio da vítima, além de matá-la. E o serralheiro é encontrado com a cabeça intacta. Também as flechas retiradas de suas costas eram mais curtas que as usadas pelos indígenas, o que aumentava a suspeita sobre algum cidadão do Rio de Janeiro.

Na trama, Mussa evoca constantemente o mito das mulheres Amazonas, ou seja, guerreiras que não admitiam homens em seu convívio, aceitos apenas para ajudar na procriação – e, dessas relações, sobreviviam apenas as meninas, pois bebês homens eram impiedosamente mortos. “Já existia um mito de mulheres sem marido, entre indígenas americanos, que se fundiu com o das Amazonas propriamente ditas. Um fenômeno corriqueiro, aliás, esse tipo de coincidência, porque a maioria dos motivos míticos é universal (como o do dilúvio, do roubo do fogo, da descida aos infernos, do paraíso perdido etc)”, observa o escritor. 

“O traço que me chamou a atenção no mito refundido, que é forte também nas versões indígenas, é a associação entre mulheres guerreiras que se governam sozinhas e mulheres sem marido que são sexualmente pervertidas. Fica implícita a noção de que a sociedade só poderia existir se se controlarem os impulsos sexuais femininos, o que nos remete a outro mito universal: o da dominação da mulher pelo homem. Acho que esse conjunto de ideologias esteve presente, o tempo todo, na investigação do crime”, continua Mussa.

O desafio do escritor foi encontrar o correto balanceamento entre uma escrita sofisticada e outra mais divertida, capaz de fisgar a atenção do leitor. Para isso, Mussa apresenta uma cidade ainda precária, primitiva, recheada de improvisações, e que se transforma, a partir da narrativa, no marco zero de um mundo ao mesmo tempo novo e hostil. A mágica está em transformar aqueles fatos seculares em algo atual, ou seja, fazer o leitor acreditar estar diante de uma investigação que parece se desenrolar hoje.

“É o que há de mais difícil. É o equilíbrio perfeito que só os verdadeiros gênios alcançam: Shakespeare, Dante, Machado, Cervantes, o conjunto de poetas anônimos que recebeu o pseudônimo de Homero, os inúmeros copiadores de romances de cavalaria, os infinitos narradores das Mil e Uma Noites”, diz Mussa. “Todos eles sempre foram imensamente populares e, ao mesmo tempo, sempre se prestaram às exegeses mais eruditas. A mitologia, que nasceu com o Homo sapiens, é exatamente assim. Ao redor das fogueiras paleolíticas, depois de um longo dia em busca de alimento, as pessoas se reuniam para ouvir histórias e se divertir. E era nessa hora que vinham à tona as grandes reflexões sobre a condição humana. É por isso, por essa dupla natureza, que os mitos continuam sendo contados até hoje, centenas de milhares de anos depois.” 

A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO

Autor: Alberto Mussa

Editora: Record (240 págs., R$ 35)

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