Alan Pauls: a tragicomédia do amor obsessivo

O escritor Alan Pauls, definido pelos críticos argentinos e espanhóis como um dos principais expoentes da nova geração de literatos do mundo hispano-falante, prepara-se para ver a transposição de sua última e mais substancial obra, El Pasado (O Passado), para a grande tela. O artífice dessa passagem será Hector Babenco.El Pasado, romance de quase 600 páginas considerado como um exemplo de literatura neo-proustiana, com fortes influências do humor negro que caracterizou seu compatriota Julio Cortázar, conta a história anti-politicamente correta de Rímini e Sofia, casal que após 13 anos de amor, decide separar-se.El Pasado, que venceu em 2003 o prestigiado Prêmio Herralde, da Espanha, foi definida como "uma novela sobre aquilo que vem depois da experiência amorosa. Uma novela de pós-paixão".Como encara a passagem de seu livro para linguagem de cinema?A transposição da literatura para o cinema nunca se produz sem "derramamento de sangue". Mas, como também sou um roteirista, e já fiz adaptações de material literário para o cinema, sei que não necessariamente esses derramamentos de sangue são desagradáveis. Sei que é necessário um certo grau de infidelidade na tradução de um texto literário para o cinema e, por isso, a única coisa que espero é que essa infidelidade seja o mais agradável e inspirada possível.O que acha de Gael García Bernal, que será o protagonista Rímini?Ele possui uma energia incrível. Me surpreendeu imaginá-lo como Rímini. Mas, qualquer um teria me surpreendido, já que nunca imaginei a cara do personagem. Não consigo imaginar a cara dos personagens da literatura, de forma geral. Considero que literatura é exatamente o contrário da imagem.No entanto, em suas obras faz uma descrição bem detalhada do que seus personagens fazem...Daquilo que eles fazem, sim! Mas não de meus personagens, dos quais não indico como são seus rostos, se têm cabelo comprido ou curto, se as mulheres são loiras ou morenas. Não posso imaginar qual o rosto de Gatsby, de Scott Fitzgerald. Ou a do professor Nin, de Nabokov. Não importa que o livro descreva em detalhes os personagens, pois o fato de que personagens da literatura sejam feitos de palavras os coloca na calçada oposta à imagem.A idéia da "célula terrorista emocional" é algo de nossos tempos? Um grupo de mulheres poderia ter feito algo assim, gerações atrás?Eu quis levar à paródia certa tendência contemporânea de politizar e organizar até o menor signo de uma idiossincrasia sentimental. Acho que a proliferação de grupos de auto-ajuda, de pequenas organizações baseadas somente na reivindicação de algo que até pouco tempo atrás poderia ser um defeito e transforma-se em uma causa. Não descarto que um dia a organização das Mulheres que Amam Demais um dia façam seu "braço armado". Há um século, com certeza, as mulheres tinham coisas mais fundamentais para defender...Como definiu o nome de O Passado? Parece algo proustiano...Primeiro pensei em A Mulher Zumbi, pois tratava da ex-amada que volta para atormentar o homem. Mas, percebi que parecia muito com os títulos dos filmes do cinema B dos anos 50. Depois, pensei em Ex. Mas era muito explícito, pois referia-se à ex-mulher. E, finalmente, comecei a pensar que o título tinha de ser hospitaleiro, como se fosse um lugar. E aí pensei em O Passado. Era um título ready-made. Já tinha jeitão de clássico. E gostei da idéia que as pessoas perguntassem umas às outras: "Ei, você já terminou O Passado?" ou "Comprou O Passado?" (risos)Levou cinco anos para escrever O Passado. Seus processos de criação são sempre longos? Ou esse foi um caso excepcional?Sou bem lento para escrever. E essa novela era bem complexa. Gosto da lentidão. Houve um momento, na novela, quando vi que era extensa, que queria "viver" dentro dela um tempo. Uma experiência ambiental.Os críticos dizem que o nascimento de sua filha mudou sua literatura...Houve um período de dez anos ao longo do qual não publiquei ficção. Só ensaios, entre eles, um sobre Borges. Mas, alguém real, como uma filha, que nasceu nesse intervalo, começa a ser atraente. Praticava, até então, uma literatura que tinha muito a ver com literatura. E que ela deveria estar separada da vida. Mas o nascimento de minha filha me fez mudar. E esses dois lados, que queria manter separados, o da vida e da ficção, começaram a se contaminar. Isso me transformou em um observador muito minucioso do mundo .Na Espanha, entre os leitores, havia uma lenda de que Alan Pauls não existia, de que era um personagem. Isso acabou quando você apareceu para receber o Prêmio Herralde...As pessoas achavam que eu era a criação de um grupo de amigos, entre os quais Enrique Vilas-Matas, Roberto Bolaños e Rodrigo Fresán, ou seja, uma co-produção catalã-chileno-argentina (gargalha). Parecia uma coisa de Borges...

Agencia Estado,

04 de julho de 2006 | 11h14

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