Alagoas revive o Quilombo dos Palmares

A comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra neste 20 de novembro será feita com um mega-evento que muda hoje o foco das atenções da capital para a cidade de União dos Palmares. Uma tem 700 mil habitantes, a outra, 56 mil, e fica a uma distância de 80 quilômetros de Maceió. Lá será aberta ao público a Vila dos Palmares, uma reconstituição com atores representando o cotidiano do Quilombo dos Palmares, um espetáculo de teatro dança e música Quizomba - Tambores de Palmares, o grupo Ileaiyê da Bahia e a cantora Margareth Menezes, entre outras atrações. A idéia de lançar luzes sobre uma época e sobre Zumbi, o herói que inseriu o Quilombo dos Palmares na história do Brasil - com direito a repercussão internacional -, partiu da Fundação Palmares, com sede em Brasília, e apoio do governo de Alagoas. "Zumbi é comparável a Simon Bolívar e desde o tombamento da Serra da Barriga, em 1996, onde se instalou o Quilombo dos Palmares, queríamos realizar um projeto aqui", diz o vice-presidente da Fundação, Jonatas Nunes Barreto, lembrando que existem hoje no Brasil cerca de 724 comunidades de quilombos. Barreto alerta que o papel da Fundação não se assemelha ao da Funai. "A intenção não é preservar os quilombos, mas criar condições de sobrevivência fora deles".O que foi o Quilombo dos Palmares? O que se verá nesta tarde, quando as portas da "Vila dos Palmares" se abrirem, ali no sopé da Serra da Barriga, em União dos Palmares, será uma réplica do quilombo original, montada em uma área de 75 mil metros quadrados. Um "museu vivo" que reproduz os mucambos, como eram chamadas as casas feitas de palha e barro. O artesanato usado na cenografia e ambientação provém de várias regiões do Estado, como a cerâmica do Muquém, povoado remanescente dos quilombos de União dos Palmares, as esculturas em ferro de Arapiraca, os trançados de Penedo, as esculturas em coqueiros de Maceió, esteiras de São Luiz do Quitunde.Uma representação com cerca de 700 atores vai mostrar como era o dia-a-dia dos que viveram ali, num período que durou mais de 100 anos, começando no final do século 16 e se estendendo até o final do século 17. E não eram só negros que viviam ali, mas também índios e brancos, contrários ao poder colonial. Era um "estado soberano comandado pelos negros", afirma a historiadora Aneide Maria de Santana, onde "a liberdade era o valor maior".Uma equipe de 250 pessoas trabalhou durante 27 dias para montar a Vila dos Palmares, seguindo uma releitura da história dos quilombos orientada pela historiadora Aneide, para quem "Palmares é o fato histórico inseparável e indispensável para a compreensão da formação do povo brasileiro". Espetáculo - Além do museu vivo, a expressão artística e a influência negra na música e na dança será representada em vários espetáculos. Um deles foi produzido especialmente para a ocasião e será apresentado às 18h30: Quizomba: Tambores dos Palmares, baseado em trechos de Arena Conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, poemas de Jorge de Lima, que nasceu em União dos Palmares e mais textos e roteiros elaborados por Beatriz Brandão, Gustavo Leite e Mirna Porto, arquiteta responsável pelo projeto de reconstituição do quilombo. Da Bahia vem o grupo Ileaiyê, de Pernambuco vem o Maracatudo e a Banda Irê, representando Alagoas, que irão se apresentar a partir das 20 horas. O encerramento será feito pela cantora Margareth Menezes, que vai apresentar à capela um canto africano, em homenagem a Zumbi.Ao falar sobre a parceria do governo com a Fundação Palmares, o governador Ronaldo Lessa disse que a idéia é fazer deste resgate histórico um mote para exploração do turismo étnico e histórico, construindo um calendário de eventos mensais, trazendo expressões de outras nacionalidades, como o gospel norte-americano, que atrai o turista de uma maneira geral e não só o negro. E trabalhar pelo desenvolvimento industrial do município. "Estamos trazendo a Quaquer, que é uma multinacional que vai instalar uma fábrica na região, há uma cachaçaria para ser montada, a cidade já tem um hotel muito bom, o perfil da cidade já está mudando" disse.Segundo o vice-presidente da Fundação Palmares Jonatas Nunes Barreto, o investimento feito neste projeto é da ordem de R$ 240 mil. Houve ainda uma participação do governo do Estado, com R$ 24 mil, além da infra-estrutura, que segundo o governador Ronaldo Lessa envolveu as secretarias de Turismo, Cultura, Infra-estrutura e Procuradoria. Mas ainda há uma questão a ser resolvida. O terreno onde foi criada a Vila dos Palmares e que pertence ao ex-governador Manoel Gomes de Barros foi cedido, mas ainda não foi doado oficialmente.

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