Air perde sutileza, mas minimalismo é sedutor

Minimalista, o som da dupla francesa Air não é feito de muitas notas, nem de muitos solos, nem de virtuosismo, mas justamente da capacidade de extrair o máximo do mínimo. Por vezes, parece até infantil de tão vulnerável, tão frágil. Com esse arcabouço, sua música seria muito mais adequada para os concertos indoor, em vez de ao ar livre.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2010 | 00h00

Nicolas Godin (guitarras, violão e teclados) e Jean-Benoît (sintetizadores e guitarras), os franceses da dupla, conquistaram o mundo sem erguer a voz. Fazem joias com pedras invisíveis. Mas, no sábado, no festival Natura Nós, ficou claro que a opção do Air foi menos pelas músicas que evocam climas de Burt Bacharach e mais no coté Kraftwerk do seu trabalho, os mantras robóticos, justamente por conta dessa necessidade de ocupar a amplidão.

Ainda assim, foi um bonito show - é muito legal quando os vídeos exibidos nos telões são feitos para emoldurar a música, e não para competir com ela. Dândis de Versalhes, magricelas elegantes, Nicolas e Jean-Benoît parecem saídos de alguma capa de disco de ambient music dos anos 70, com roupas e sapatos brancos, gravata branca e calça de seminarista; camisas de mangas abertas nos pulsos, como batina de padre. Sua turnê pelo Brasil denuncia que seu sucesso é algo ainda restrito a um gueto por aqui. Em Belo Horizonte, seu show foi cancelado após a venda de apenas 30 ingressos.

A banda tocou quatro músicas do seu mais recente álbum, Love 2 (Do the Joy, Be a Bee, Love e Tropical Disease; pena, a mais bacana, So Light is Her Footfall, não entrou). O set alternou músicas de seu grande sucesso, Moon Safari, de 1998 (como Kelly Watch the Stars), com outras de 10.000 Hz Legend, de 2001 (como Don"t Be Light). Foi um show curto, de apenas 13 músicas, o que deixou um gosto de quero mais no ar (embora seja razoável supor que não daria mesmo para tocarem aquelas que envolvem grandes silêncios).

O momento culminante do show foi quando tocaram o seu maior hit na carreira, Sexy Boy, petardo irônico que balançou as pistas na década, cantado em francês. ''Sexy Boy, Sexy Boy/ Em seus olhos de dólares/ Em seus sorrisos de diamantes/ Eu também, um dia, serei belo como um Deus''. Com o reforço de um baterista de mão pesada, o show do Air passou do club para a arena, mas não sem perder algumas sutilezas. É o preço. Talvez seja a hora de dar um passo atrás.

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