Air jegue

NOVA YORK

Lúcia Guimarães, lucia.guimaraes@estadao.com.br, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2010 | 00h00

Um neologismo cruzou o firmamento online nesta alta temporada de viagens aéreas no verão americano. É o flightmare - contração de flight (voo) com nightmare (pesadelo). Um site de aviação da Califórnia pergunta: Você teve um flightmare recentemente? Sim, responderiam em uníssono centenas de milhares de pessoas, caso a pergunta se tornasse viral.

O passageiro aéreo do século 21 é submetido a tanto desconforto que, espremida nos assentos cada vez menores dos aviões cada vez menos ventilados com o serviço cada vez mais reduzido em viagens mais longas, tenho a impressão de estar cruzando o Crato no lombo de um jumento.

O transporte aéreo é o único modo de locomoção que se deteriorou. Não se tornou mais rápido e é hoje muito menos confortável. É também, sem dúvida, mais seguro e mais barato. Mas viajar de trem, ônibus e navio também se tornou mais seguro, mais rápido e bem mais confortável.

Como a esmagadora maioria não disponho de US$ 15 mil para voar na suíte recém-criada suíte de Primeira Classe da Singapore Airlines, tomando Dom Pérignon. Cada vez que me vejo obrigada a entrar num avião, hoje, começo a ouvir a voz do Fagner na minha cabeça: "Só deixo a minha Manhattan no último pau de arara."

Por R$ 65 tomo um ônibus numa esquina próxima ao meu bairro (e não na cavernosa rodoviária da Rua 43) e a viagem de três horas, rumo ao fim de semana com amigos, inclui internet de graça, um filme, jornais, salgadinhos, água mineral e, às vezes, até um copo de vinho sofrível. Os passageiros têm de desligar a campainha do celular e só podem fazer uma chamada curta. A poltrona reclina mais do que a da maioria dos aviões que tenho tomado para viajar ao Brasil.

A dilapidada companhia ferroviária Amtrak, que Ronald Reagan tanto se orgulhou de tentar eliminar, é ineficiente para padrões europeus, mas é a forma preferida de transporte entre Nova York e Washington. Quando somamos o tempo para chegar e sair dos aeroportos, as filas de segurança, as interrupções por mau tempo e o péssimo serviço de bordo, o trem ganha disparado.

Depois que o Concorde saiu do ar, em 2003, a Boeing e a Airbus não investiram em alternativas de velocidade e sim de quantidade de passageiros. Graças aos novos modelos de aviões, temos muito mais testemunhas do nosso tormento quando os ressentidos comissários de bordo americanos nos cobram US$ 10 por uma salada de galinha que parece ter sido preparada no governo Truman. Não podemos esquecer que as companhias americanas agora cobram para carregar sua mala nos voos domésticos. Se o passageiro asseado insiste em ter várias mudas de roupa numa viagem, ele vai pagar até US$ 25 pelo direito de colocar sua mala no compartimento de carga de pelo menos oito companhias aéreas. A desafortunadamente chamada Spirit Airlines, com sede na Flórida, tornou-se a primeira empresa a cobrar (US$ 45 por peça) pelo privilégio elitista de levar sua bolsa a bordo, no compartimento acima do assento.

Não será surpresa se logo começarem a cobrar pelo papel higiênico, o colete salva-vidas e, por que não?, o oxigênio ("Aperte os cintos e respire fundo!").

O 11 de Setembro, o preço do petróleo e as companhias aéreas que dão desconto jogaram a aviação comercial numa espiral de crise que produziu US$ 50 bilhões de perdas na última década.

A relação entre passageiros e tripulações é cada vez mais hostil, como mostrou o recente episódio do comissário da JetBlue, que soltou o escorregador inflável depois de brigar com um passageiro. Ele virou um herói instantâneo online, o que não é novidade quando se considera o declínio dos atrativos da profissão. Nos Estados Unidos, o salário médio bruto de um comissário de bordo, no primeiro ano, passa um pouco de R$ 2 mil por mês. Um piloto recém-empregado numa empresa aérea regional americana não ganha muito melhor. Se considerarmos o adicional de insalubridade dos passageiros revoltados e a ameaça de que um deles queira tocar fogo no sapato ou nas calças em nome de sua religião monoteísta, servir hambúrguer numa lanchonete começa a parecer uma carreira.

Na semana passada, obrigada a tomar a ponte aérea entre o Rio e São Paulo, pensei neste cenário triste do Hemisfério Norte, enquanto a tela de partidas anunciava o portão do meu voo, alternadamente como "previsto" e "estimado". Quase pedi um dicionário emprestado, mas concluí que não se tratava de distinção e sim manobra de distração semântica. A ausência física do avião, facilmente detectada pelo vidro, me permitiu estimar e prever que não iria a lugar nenhum tão cedo. Cancelei compromissos para dedicar várias horas à aventura de voar 40 minutos na volta.

O outro neologismo do momento nos Estados Unidos, graças à recessão, é staycation, as férias sem viagem. As companhias aéreas, ao menos, contribuem para o enriquecimento da língua.

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