''Ainda sou um escritor que tem muita raiva''

ENTREVISTA

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2011 | 00h00

Nick Silver, dramaturgo americano

Nascido na Filadélfia, em 1960. Nicky Silver exibe um olhar constantemente triste. Sua fala, no entanto, é irônica no tom certo, o que até surpreende em um autor cuja fama surgiu com peças em que o humor dilacera e o nonsense amargura. Depois de reinar no circuito off Broadway, Silver conquistou espaços mais generosos, inclusive na grande imprensa americana - Ben Bratley, crítico do New York Times, por exemplo, classificou-o como um autor "absurdo clássico". Em sua opinião, "Silver cria uma poesia quase perversa nas banalidades sociais". Enquanto participa da montagem de sua mais nova peça, The Lyons, cujas pré-estreias começam na quarta-feira, Silver conversou por telefone com o Estado.

Você disse, certa vez, que a maioria de suas peças surge a partir de um simples conceito. Assim, qual seria então o de Os Altruístas?

Bem, parti do significado original da palavra "altruísmo", que implica uma dedicação desinteressada no próximo, para então desconstruí-lo. Ou seja, mostrar como o bem, muitas vezes, encobre o mal.

Pterodátilos, que ainda é seu principal sucesso mundial (também no Brasil), é uma peça muito raivosa, mas você não parece ser assim também.

Mas eu sou muito raivoso (risos). Só não transpareço porque destilo tudo em minha escrita. Na verdade, hoje sou uma pessoa muito diferente de quando, por exemplo, escrevi a peça Homens Gordos de Saias, Naquela época, eu era uma pessoa muito irritada por conta de momentos da minha infância e de não encontrar meu lugar no mundo. E, como disse, continuo com uma certa fúria: basta olhar Pterodátilos.

Para você, o que separa ser engraçado e ser trágico?

Bem, eu parto do princípio de que existe humor em tudo, pois, sem isso, certamente não existiria a espécie humana. Mas, a fronteira entre a graça e a tragédia depende muito do tipo de família de que estamos tratando. Agora, quando estamos falando de uma encenação teatral, a diferença entre ser trágico e engraçado está nos detalhes: em uma inflexão de voz, em uma iluminação particular, ou naquele milionésimo de segundo de silêncio que só os atores de muito timing sabem fazer.

Você acredita que seu trabalho testa o limite e a definição da palavra "perdão"?

Quando escrevi Os Altruístas, há 11 anos, eu era menos propenso a aceitar o perdão, o que só veio acontecer com o passar do tempo - basta observar nas minhas peças seguintes como transpareço ser mais tolerante em relação ao ser humano.

Falando agora sobre seus personagens, as mães eram mais constantes no início de seu trabalho, depois a situação parece ter mudado. O que aconteceu?

Sabe que agora estou de volta a esse tipo de personagem? Na peça em que estou trabalhando agora, há o que acredito ser a maior mãe de todos os tempos. De fato, eu fiz uma pausa em um determinado momento, mas retornei. Trata-se de um personagem muito forte, que logicamente remonta à minha infância. E, claro, não preciso mas faço a observação de que a cena em que o jovem estupra a própria mãe em Homens Gordos de Saias não passa de ficção.

Como estamos falando de suas outras peças, por que você disse, quando da estreia de The Maiden"s Prayer, em 1998, de que essa peça representava um novo começo para você?

Todas minhas peças - inclusive Os Altruístas, em um determinado grau, pois há dois irmãos em cena - tratam basicamente de família. Quando escrevi The Maiden"s Prayer, senti que aqueles filhos estavam soltos pelo mundo, buscando seu espaço. Acho que esse foi o ponto de virada em minha carreira.

A primeira montagem de Os Altruístas data de 2000. Como você vê essa peça hoje?

Curiosamente, participei de uma montagem dessa peça em fevereiro passado, portanto a sensação ainda está muito fresca em minha memória. O que me chamou a atenção é que se trata de um texto escrito por um jovem raivoso que acreditava poder mudar o mundo, o que, para minha surpresa, contrariou os jovens atores que estavam nesta montagem. Acho que eles são mais céticos que os adolescentes da minha época.

QUEM É

NICKY SILVER

DRAMATURGO AMERICANO

Nascido na Filadélfia em 1960, é comparado a Ionesco e Edward Albee. Para o crítico do The New York Times, Ben Bratley, "Silver cria uma poesia quase perversa nas banalidades sociais". Seu texto mais destacável é Pterodátilos.

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