Ainda Sartre

O encontro entre marxismo e existencialismo e o debate em torno do problema de uma ficção nacional verdadeiramente popular

Adolfo Casais Monteiro, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

Não será tão cedo que se desvanecerão os muitos equívocos por via dos quais, por exemplo, têm sido perguntado a Sartre coisas como estas: por que não se suicidou aos 30 anos, se os existencialistas andam sujos, se dançavam nas caves etc. É o que o existencialismo vem a ser, para muita gente que faz a sua cultura pelas secções de anedotas da imprensa, mais uma extravagância de franceses decadentes. Pior, todavia, do que tais ingenuidades, é a má fé dos que, não tendo o direito de ignorar que o existencialismo é uma corrente fundamental do pensamento moderno, também pretendem reduzi-lo a graciosas anedotas, coisa sem dúvida mais fácil que discuti-lo.

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Uma senhora que o acaso sentou a meu lado, na conferência sobre o sistema colonialista que Sartre fez no instituto Superior de Estudos Brasileiros, ensinou-me que Sartre, dantes, era reacionário, mas agora não; ante o meu tímido protesto, acrescentou que ele abjurara o existencialismo. Perante tamanha certeza, e com receio de ser novamente desmentido, não lhe citei uma frase que se acha no prefácio do último livro do filósofo, e que diz assim: "Considero o marxismo a inultrapassável filosofia do nosso tempo (...) e tenho a ideologia da existência e o seu método "compreensivo" como uma enclave do próprio marxismo, que ao mesmo tempo o engendra e o recusa" (Critique de la raison dialectique, pág. 9/10).

Por que cito a minha interlocutora e esta frase? Porque, aquela e esta, nos elucidam desde logo sobre muita coisa, inclusive as reações contraditórias das mais diversas gentes. É certo que muitas pessoas só conhecem de Sartre a obra literária e supõem o existencialismo mais uma escola literária; a idéia de Sartre ser um filósofo pode não ter para elas um sentido muito claro. Outros, muito diversamente, sabem que Sartre foi (como toda a gente) largamente insultado por todos os stalinistas, e é, portanto, um reacionário... Estas duas noções sem sentido, mas muito correntes, não preparam evidentemente, as suas vítimas para se acharem diante dum homem que lhes fala em termos que não excluem o existencialismo nem o marxismo. Que isto se pode entender, mostra-o a breve mas excelente síntese de José Guilherme Merquior, no Suplemento do "Jornal do Brasil", de 27 de agosto, quando diz: "Uma humanidade condenada à liberdade se responsabiliza pela História; era lógico assim que o pensamento de Sartre desembocasse no marxismo, e mais ainda, que diante de um marxismo cristalizado ele erguesse uma filosofia de reconcretização marxista".

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