Celio Messias/Estadão - 1/2/2022
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Ignácio de Loyola Brandão
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Ainda existe solidariedade

Essa crônica é dedicada a Arnaldo Jabor, que não verei mais na janela

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2022 | 03h00

Há duas semanas, minha mulher e uma amiga chegavam de carro em Cangalha, Minas Gerais, para passar uns dias em meio à natureza. Como as chuvas solapavam a estrada de terra que dá acesso à nossa casa, Marcia, na hora de enfrentar uma ladeira, onde todos atolam, o que viu? Atendendo a um pedido do amigo Alci, superintendente de um olival, dois jovens, Misael e Miguel, estavam à espera na chuva, para dar guarida. Ali é assim, todos prontos a darem a mão. Eles sabiam que elas estavam chegando e o que poderia acontecer e foram lá. Elas passaram. Sem eles, teriam ficado atoladas.

Neste país, solidariedade comove. Também nos faz felizes comer verduras de nossa horta, cuidada pelo Messias, sujeito que, amando o que planta, vê tudo crescer: couve, taioba, pepino, abóbora, berinjela, alface, repolho, salsinha, tomate. O que ele planta, cresce. O gosto de tudo é diferente, a cor é alegre. Porque não há nada terminado em ‘cida’, como diz Luis Laranja da Fonseca, o fazendeiro de Itirapina que este nosso jornal mostrou. Linda reportagem sobre um idealista lúcido, cujas vacas são refrescadas por ventiladores e em cujas terra não há um grão de ‘cida’, herbicida, carrapaticida, etc. 

Vejam a louca coincidência. Na mesma semana da matéria, saudando a vida, foi votada uma lei em Brasília liberando aos agricultores todos tipos de venenos, para que o que comemos seja transformado em câncer e outras doenças mortais. 

Fonseca deveria ser homenageado, mas… impossível, teria de ir a Brasília, cidade mais tóxica do mundo. Ali tudo é cida, Câmaracida, Senadocida, Centrãocida, rachadinhacida, Ministeriocida, culturicida, tudo contamina. Minha mulher e a amiga voltaram a São Paulo e o que viram? Um celular roubado por minuto. Sequestros e mortes por Pix. O líder de uma torcida de futebol deu um tiro na cabeça de um vizinho. Milhares de sem tetos nas ruas. Profusão de cartazes: tenho fome, estou desempregado, estou doente, meus filhos não têm escola. Presidente da Assembleia Legislativa acusado de estar ligado a um condenado a 200 anos por fraude hospitalar. E o Fernando Cury? Cadê? Vou votar em deputado? Ah ah ah! O metrô desmoronando pedaço a pedaço. Casas se derretem morro abaixo, afundam nos riachos de fezes. Prefeito quer dar bônus a moradores de áreas de risco. Por que não impedir existência de áreas de risco? O Brasil vive em área de risco. Estou desanimado, deprimido, temendo o tal golpe sempre anunciado pelo homem. E se ele der o golpe na Rússia derrubando Putin? Torna-se comunista? Era o que faltava neste caos, ser o que ele teme… Parece romance meu! 

*Ignácio de Loyola Brandão é jornalista e escritor, autor de Zero e Não Verás País Nenhum

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