Ainda com os Diabos

O mundo jamais vai liquidar o mal valendo-se somente de leis, igrejas e partidos

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2017 | 02h00

Eu queria fazer uma única e solitária crônica sobre o Diabo, mas eis que, canhotamente, ele me escapa. A culpa é da argúcia de Machado de Assis.

Fora do teológico, essa indignação seria abusada caso não fosse fruto de uma visada marcada pelo estudo do exótico e do absurdo. Essas coisas que a nossa gloriosa civilização tocada a luta de classe, holocausto, guerras, alta tecnologia e supremacia do mercado, ensina a superar mesmo liquidando o planeta...

Hoje, devemos tanto que nossas almas nada valem. O Estado deve tudo à sociedade – honra, vergonha e competência –, como é o caso do nosso amado Brasil. Esse Brasil que nunca foi tanto “o país do futuro” como nestes tempos presentes.

Tentar compreender sem acusar, leva a simpatizar com o exótico e a estranhar o rotineiro. A descoberta mais importante, porém, não é saber que o “outro” é um estranho. É descobrir como é difícil sair da canhotice que, nos canhotos, surge com a mesma naturalidade de uma língua que se aprende sem saber. O problema da diferença é como abandoná-la.

A diferença é o apanágio da literatura. Com ela, aprendemos que, diferentemente dos demônios de outras terras, o Diabo brasileiro de Machado de Assis, não se contenta em adquirir almas. 

No Brasil, ele deseja vencer o bem fundando uma igreja. Tal como fazemos quando pensamos que basta uma lei para liquidar a corrupção ou a desonestidade, que mancham a política e os seus matrimônios com uma economia de compadres campeões. Sancionando leis que tudo resolvem, criamos uma quadrilha de governantes-meliantes-psicopatas, todos seguidores da lei porque transformam o “Estado” numa igreja.

Hoje, vivemos o trauma de descobrir que o ruim não acaba com um Messias, um partido, uma lei ou um ministério. Esse modo ingênuo de enfrentar desvios com o formalismo institucional, é o erro do Diabo machadiano. Por isso, ele não recorre ao familiar engodo de uma troca sem reciprocidade, no melhor estilo de Marcel Mauss. Troca na qual o dinheiro entesourado, apodrecido e ligado à morte, é permutado por almas. O Diabo brasileiro – tal como todos nós (incluindo este humilde cronista) – funda uma instituição destinada a “resolver” de uma vez por todas o problema do bem. Ou no caso desse Diabo, do bem como um problema. 

E os satanazes de Grimm, Irving, Benét, Blatty, são faustianos e individualistas, fiéis à tradição inventada por Lúcifer. Vale lembrar que Lúcifer é o inventor da revolta (que divide o todo) e convém recordar que ele não chegou à revolução (que refaz o todo de modo contrário). Contentou-se Lúcifer com o inferno e a fazer o mal por atacado: com insinuações malandras e bastante razoáveis no contexto de nossa humanidade. Quando, entretanto, descobre que sem uma “igreja” seria um eterno perdedor, surge a esperança. 

É esse projeto revolucionário que distingue o Diabo sem nome de Machado de Assis. Indo além dos indivíduos, ele planeja agir através de uma igreja. Uma igreja baseada na transformação de vícios em virtudes. Feliz com a descoberta, ele a anuncia a um Criador curiosamente indiferente. 

Agora, imagina o capeta, a luta do mal contra o bem se equilibra. Mas logo o demônio descobre que nas rotinas do pecado, virtudes subversivas insinuavam-se e eram praticadas na sua igreja. É quando constata que ele é também uma vítima da “eterna ingratidão humana” – essa ativação do canhoto na direita tão bem conhecida de Deus. Essa inversão capaz de desmoralizar dualismos, partidos e ideologias.

Diabos tradicionais são exorcizados. Atacam os inferiores estruturais como os pobres e as adolescentes em fase pré-menstrual.     Mas uma igreja do Diabo é algo absolutamente singular. Nela, o demônio tem doutrina, rituais eclesiásticos. Ele – esse é o ponto –, tanto quanto nós, acredita que um aparato externo vai resolver. Mas conforme eu tenho remarcado aqui e acolá, instituições precisam de seguidores. De nada vale uma constituição francesa sem franceses para segui-la! 

A “eterna ingratidão humana” do Diabo machadiano é a descoberta que não basta uma ideologia. É preciso, como acontece com um idioma, de falantes. Tal como a poesia precisa de cantores e um drama de atores. O mundo, ensina o bruxo do Cosme Velho, jamais vai liquidar o mal valendo-se somente de leis, igrejas e partidos. Pela mesma fórmula, o bem jamais vai deixar de surgir como uma franja do mal. A dualidade que desequilibra é a mesma que equilibra.     

Mas, para enxergar isso, será preciso livrar-se da ilusão, segundo a qual basta uma penada ou um ministério. O mundo é bem mais complicado do que imaginava o nosso Diabo. 

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