Ai, Ai, Pad

Ai, Ai, Pad

Jornalismo com bola de cristal tem seus riscos. Ainda mais antes de um feriado longo. Jornalista gosta de folga tanto quanto qualquer mortal. Mas há que se evitar certas tentações. Foi assim que, em maio de 1981, uma certa descrição da habitual audiência de quarta-feira na praça do Vaticano misteriosamente careceu de um detalhe: o papa tinha levado quatro tiros de um terrorista turco.

NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2010 | 00h00

Quando outro esperado ritual acontecer, estarei longe de Manhattan. Antes de partir, ofereço um pouco de realismo em ficção. A salinha de correspondência do meu edifício terá sido frequentada com ansiedade no sábado. Seletos vizinhos sorridentes vão tomar posse de suas caixas com o orgulho de serem os primeiros a ativar seus iPads.

E, nesta segunda de manhã, estarei me equilibrando na banqueta do café da esquina, lendo um jornal que mancha meus dedos de tinta. Deixo para ler os tabloides na rua e reservo a santidade do lar para o New York Times e outros. Alguém há de puxar a banqueta ao meu lado, disparar um olhar de superioridade e sacar de sua bolsa o novo Santo Graal. Vou me controlar para não esticar o pescoço e espiar a tela. A única primeira edição que me interessa comprar é a de Ulisses e, ao preço atual, está fora de questão. No mundo da eletrônica e da automoção, considero os primeiros compradores cobaias - pioneiros que fazem o dever de casa para mim. Neste caso, eles são passionais, a Apple é um culto nos Estados Unidos, com mais seguidores do que a Scientology, mas toma menos dinheiro do que a "igreja" de Tom Cruise e dispensa felicidade terrena.

O tablete branco de US$ 500 a US$ 830 tem o potencial de influenciar minha vida profissional mais do que as minhas idiossincrasias de consumidora. O iPad chega com a aura messiânica de ajudar a resgatar uma indústria da obsolescência trazida pelo conteúdo grátis. E há um punhado de tabletes de outros fabricantes fazendo fila para chegar ao mercado até o ano que vem. A Viacom move um processo de US$ 1 bilhão contra o Google acusando o gigante da busca de ter comprado o YouTube sabendo das infrações de copyright que permitiram o crescimento do serviço de vídeo online. Jornais começam a erguer seus muros eletrônicos para cobrar por acesso a matérias. O Hulu, o site de TV, não exibe mais o programa de Jon Stewart. Estamos atravessando um jacobinismo previsível, depois da ressaca do clima de "a informação quer ser grátis".

Garanto que o slogan não colou quando renegociei meu seguro saúde e o aluguel do apartamento. Há dois domingos, às 7h55 da manhã aperto o rosto contra o vidro da resplandecente loja da Apple. Peço um pouco de crédito a quem desconfia do meu masoquismo pela frase anterior. O programa de instrução de edição da empresa é tão popular que é mais fácil marcar uma audiência particular com o prefeito Bloomberg. Morta de sono, fui ao subsolo onde o formigueiro de jovens de camiseta azul já começava a circular. O meu instrutor de edição digital me dirigiu aquele olhar afetuoso e condescendente que deve reservar à geração de seus pais - a minha. Não me importo de ser subestimada, não considero nada pessoal. Enquanto ele dizia palavras introdutórias de conforto, como um dentista empunhando a broca, abri meu notebook e desfiei o rosário de desafios que tenho enfrentado para conciliar minhas reportagens em HD com meus arquivos em diferentes formatos e o programa de edição. O guri recalibrou a atitude e partiu para o que me interessava: soluções técnicas.

Posso ter impressionado o instrutor, mas não me engano. Na véspera, havia passado o dia numa feira de empregos promovida pela Columbia University. Centenas de estudantes da melhor escola de jornalismo do país, um grupo que inclui graduandos dos cursos de broadcasting e mídia digital, foram de mesa em mesa conversar com empregadores potenciais, da BBC a uma pequena estação de rádio do Meio-Oeste. A brazuca aqui foi tratada a pão-de-ló pelos recrutadores da Columbia. Só procuro cerca de um assistente. Mas o mercado para jornalistas, bem, preciso me estender?

Pela minha mesa passaram sete candidatos potenciais, quatro com hora marcada e três que se aproximaram quando viram a palavra "Brazilian" numa placa. A paixão pelo Brasil está em alta entre os jovens aqui. Todos estão chegando ao mercado de trabalho com um preparo técnico e editorial que jamais sonhei receber. Gravam e editam em vídeo digital, escrevem textos articulados, dominam os detalhes técnicos do jornalismo online. E são mais cosmopolitas do que o clichê do americano alienado e monoglota.

O que isso tem a ver com o lançamento do iPad? As primeiras resenhas do produto são mistas. Trata-se de um grande passo em direção à portabilidade e o apuro visual que vai tornar a leitura de conteúdo mais atraente. E, de quebra, torcemos, pode tornar a publicidade um fator econômico na manutenção do jornalismo eletrônico.

Mas, além de reclamar que os blogs roubam nossos textos, não podemos ficar à espera do Santo Graal. O racha entre os despossuídos e os enriquecidos pela tecnologia no jornalismo precisa ser vencido ou a condescendência do meu instrutor daquela manhã de domingo logo será justificada.

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