AHAHA E A ARTE QUE IMITA A VIDA

O coreano Hong Sang-soo reinventa a nouvelle vague e faz filmes em que tudo e nada são diferentes faces da mesma moeda

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2012 | 02h07

Ri-se bastante no cinema do coreano Hong Sang-soo e a prova disso é o próprio título de Hahaha, que estreou ontem. Mas talvez não seja correto definir o filme como 'comédia'. Uma leve ironia atravessa os personagens e as situações, mas Sang-soo é, acima de tudo, um observador como Eric Rohmer, que filma como o Jean-Luc Godard da primeira fase, de olho no próprio cinema. Não por acaso, são dois autores franceses que ajudaram a forjar a nouvelle vague, o movimento de renovação do cinema francês por volta de 1960.

Sang-soo é cria de Rohmer na medida em que conta histórias de casais - um de seus filmes se chama Conto de Cinema, como Rohmer tem os Contos Morais e As Comédias e Provérbios. E é cria de Godard, na medida em que ama improvisar. Seus filmes se passam todos na mesma zona de Seul, e os atores já sabem que vão criar os diálogos com as indicações que o cineasta lhes fornecer. Só ele tem o filme completo na cabeça, embora o próprio Sang-soo reconheça que seu método faz com que os filmes muitas vezes tomem rumos diversos no set de filmagem ou na ilha de edição.

Cahiers du Cinéma dedicou uma de suas edições recentes a Hong Sang-soo, pegando carona no filme que ele fez com Isabelle Huppert - e concorreu em Cannes, em maio, In Another Country. Um enviado da revista visitou os locais de filmagem, entrevistou colaboradores. Há uma entrevista com Isabelle Huppert, em que ela explica por que é atraída pelo olhar estrangeiro. Hahaha é de 2010. Conta a história de um diretor e seu amigo, um crítico de cinema. O diretor, um personagem recorrente na obra de Sang-soo, está para deixar a Coreia. Vai morar no Canadá. Chama o outro para um drink de despedida. Ambos narram suas experiências com mulheres de uma mesma cidade aonde foram recentemente, sem se dar conta de que estão falando da mesma mulher. O que é engraçado eventualmente deixa de ser. Vira um drama. Por que se fechar num gênero, apenas? O cinema, como a vida, não tem limites nem fronteiras. Não obedece a gêneros. Mistura tudo.

Kim Sang-kyung e Yu Jun-sang são atores fetiches de Sang-soo. Estão em vários filmes do diretor. Jun-sang conta como começou a parceria. Sang-soo o chamou para conversar. Beberam, uma noite toda, e ele estava certo de que conseguira o papel de Mulher na Praia. Sang-soo contratou outro ator, mas chamou-o para o filme seguinte, As Mulheres dos Meus Amigos, e, desde então, ele foi incorporado ao seu elenco. As cenas de bebedeira são recorrentes nos filmes de Sang-soo. Em Oki's Movie, o diretor, também uma figura frequente, vira uma mulher. Até quando muda, Sang-soo dá a impressão de se repetir. Muitos críticos juram que ele faz sempre o mesmo filme.

Em torno ao diretor e ao crítico, gravitam os demais personagens - a garota, que é guia de turismo, um poeta, a mãe que ainda vê o filho adulto como criança. Todos compõem uma galeria que Sang-soo filma 'à francesa', no mais puro estilo nouvelle vague. Ele consegue ser, ao mesmo tempo, minimalista, metafísico. Seu tema - rohmeriano - são os jogos de amor e sexo entre as pessoas (os casais), que ele filma para discutir, godardianamente, a linguagem. As duas histórias correm paralelas, senão simultâneas, mas isso faz parte do jogo - essa criação de um tempo que não é o real, mas o do cinema.

O autor vem percorrendo esse caminho - e perfeccionando seu estilo - ao longo dos anos (e dos filmes). Usa um sutil acompanhamento de piano, que sublinha frases (fases) e deslocamentos. A questão é - Hahaha versa sobre o quê? O cineasta quer levar a guia para a cama, o crítico sofre de uma depressão crônica. Diferem tanto que, no fim, compõem diferentes faces de um mesmo personagem, dividido entre instinto e razão. O filme é sobre nada, porque não parece ocorrer muita coisa nessas vidas. Só que filmando o nada, Sang-soo quer falar de tudo. O encanto de seu cinema está nesse delicado equilíbrio. Não é mais o velho chavão da arte que imita a vida. A vida é que se parece, cada vez mais, com um filme.

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