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Agulhas ensandecidas

Vitimado pelo destempero verbal, John Galliano junta-se a outros ícones triturados na alucinação do universo fashion

SUZY MENKES, THE INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE,

05 de março de 2011 | 10h26

A saída de John Galliano, diretor de criação da Maison Christian Dior, marca o fim de um ímpeto desenfreado da moda no qual graça, glamour e choque, em igual medida, fizeram a outrora conservadora casa parisiense a dar um grande salto tanto no que se refere à imagem quanto ao sucesso financeiro.

Na terça-feira, a Maison informou que deu entrada em uma ação judicial para demitir Galliano, o estilista de 50 anos cujos desfiles românticos e teatrais deram nova vida à alta costura. A decisão foi motivada por acusações de destempero verbal do artista, com o uso de expressões antissemitas, num momento de bebedeira, em Paris.

Em 2000,uma controvertida coleção inspirada nos sem-teto, com casacos elaborados com grande sofisticação e costuras desfiadas, contrastava com românticos e esvoaçantes vestidos de noite exibidos em um parisiense jardim de rosas do Bois de Boulogne.

Embora o estilo Dior muitas vezes tivesse origens históricas, atualizando o famoso New Look de 1947 do fundador, Christian Dior, Galliano acrescentou uma veia subterrânea de acentuada sexualidade, perversão e às vezes até mesmo um lado negro. O equilíbrio estaria entre a refinada elegância de uma saia enviesada e a rígida coleção de trajes de ficção científica de 1999 que introduziu o espírito do filme Matrix nos ambientes de Versalhes. Fascinado pela história, e mais recentemente mergulhando em referências ao passado, os melhores momentos de Galliano referem-se a mulheres exoticamente elegantes, como Misia Sert, famosa pelos saraus em seus salões de Paris, ou a marquesa Luisa Casati, retratada por Giovanni Boldini.

Cada coleção exigia uma pesquisa meticulosa, muitas vezes com visitas a lugares distantes, e evoluiu em um livro de referência sobre a formação de Galliano, no Central Saint Martin College of Art and Design, de Londres. Sua primeira coleção, ao formar-se em 1984, foi inspirada em Les Incroyables, simpatizantes da realeza no período revolucionário francês.

Em 1995, Galliano começou a trabalhar para Givenchy. Menos de dois anos depois mudou-se para a Maison Dior. Ambas as casas, assim como a marca própria de Galliano, pertencem à LVMH Moët Hennessy Louis Vuitton, o maior grupo mundial de artigos de luxo, dirigido por Bernard Arnault.

A imaginação desenfreada de Gallliano, nascido em Gibraltar de mãe espanhola, e a capacidade de transformar suas ideias em chapéus extravagantes ou sapatos delicados, tornaram-no um cigano da alta moda - em grande parte por causa dos seus longos cabelos esvoaçantes e suas exibições em costumes teatrais no fim de cada desfile.

As colaborações com outras pessoas criativas, como o chapeleiro de luxo Stephen Jones, que podia transformar em chapéu qualquer capricho, da caça à raposa a Madame Butterfly, fizeram dos desfiles de Dior verdadeiros tesouros artísticos. Outras coleções mais acessíveis, de prêt-à-porter, abrandaram a dramaticidade e a forte ênfase sexual, ajudando a Maison a romper a barreira do bilhão de dólares.

Amigos de Galliano, que só falaram com a condição de não ser identificados, afirmam que finalmente convenceram o perturbado estilista a se internar em uma clínica de reabilitação. Na quarta-feira, comentava-se que ele teria deixado a França em busca de tratamento. Também disseram que o ritmo do mundo da moda hoje, e particularmente a rigorosa estrutura de uma corporação de moda, acabaram desequilibrando o frágil criador artístico.

Comiseração. Embora as palavras ofensivas com as quais Galliano, bêbado, se expressou no vídeo exibido na internet, mereçam a condenação quase total que estão recebendo, é impossível deixar de sentir comiseração por um dos estilistas mais famosos do mundo - e mais bem pagos - sozinho, segurando um copo num bar. A pressão do universo alucinado da moda e da era da comunicação instantânea pela internet para criar constantemente coisas novas já destruiu outros nomes famosos. Marc Jacobs, diretor de criação da Louis Vuitton, internou-se numa clínica para se tratar de uma crise profunda. Calvin Klein admitiu usar intensamente drogas. E Yves Saint Laurent passou a vida lutando contra seus demônios.

Acima de tudo, o suicídio de Alexander McQueen, um ano antes de Galliano se expor à desgraça pública, é um fantasma que paira sobre a indústria da moda. A morte por parada cardíaca do colaborador mais próximo de Galliano, Steven Robinson, em 2007, foi outro sinal de alarme.

Vários estilistas que preparavam suas coleções para a Semana da Moda de Paris ficaram estupefatos com a repentina queda em desgraça de Galliano, mas pediram para não ser citados. Mas Victoire de Castellane, a designer de joias da Dior, resumiu os sentimentos de todos quando disse: “É ao mesmo tempo terrível e patético. Nunca soube que ele pensasse esse tipo de coisa. Ou que precisasse tanto de ajuda”.

Embora não tenha havido confirmação pública, um colega de Galliano afirmou que o estilista pretende processar a casa Dior por causa da demissão. Ele teria contratado o advogado Gerrard Tyrrell, do escritório londrino de advocacia Harbottle and Lewis, que representou a modelo Kate Moss em 2005, quando ela foi acusada de uso de cocaína. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA.

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