ÁGUAS TURVAS DO AMOR Dois Rios, segundo romance da premiada Tatiana Levy, explora triângulo de paixões

DOIS RIOS

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2011 | 03h11

Autor: Tatiana Salem Levy

Editora: Record

(224 págs., R$ 34,90)

VINICIUS JATOBÁ

E m um cenário cultural em que se avalia histericamente novos escritores é um alívio encontrar uma autora como Tatiana Salem Levy, cuja obra faz justiça a todo entusiasmo. Seus dois romances - o recém-lançado Dois Rios e A Chave da Casa (2007) - são criativos, ambiciosos, vigorosos. E apesar de possuírem alguns cacoetes demasiado literários, constituem tentativas apaixonadas de ir muito além do mero exercício de produção textual: fazem perguntas sinceras sobre a vida - e arriscam respostas.

Tatiana, contudo, "peca" por ser demasiada contemporânea: seu recurso favorito, a elipse, ainda que evite o encontro com o lugar-comum, acaba por privar a experiência de leitura do acesso emocional mais amplo às personagens. Outro "fetiche técnico" é o investimento no fragmentário, cuja vantagem mais evidente para a autora é lhe permitir uma fluência de ordem espacial e temporal, que, no entanto, aliena a experiência de quem lê do prazer de um mergulho mais fundo na trama.

O fato da leitura dos romances de Tatiana serem experiências intensas apesar da forma com que foram escritos conspirarem contra suas histórias nasce da riqueza da palheta emocional da autora, e da percepção logo evidente de que ela é uma poetisa encontrando modos de se expressar em um gênero que ganha sua maior força no prosaico. A Chave da Casa é um poema sobre a traição da memória: é impossível recobrar o passado sem receber dele também justamente aquilo que não queríamos mais recordar. É também um poema sobre o que o corpo sente e o que o corpo lembra daquilo que sentiu.

Em Dois Rios Levy pesquisa a arte do encontro, ou de como o amor nos faz descobrir coisas em nós mesmos que jamais suspeitávamos. Marie-Ange é alvo do amor dos gêmeos Joana e Antônio, separados por uma distância continental, e que na paixão pela mesma mulher acabam por encontrar um ao outro na memória, na lembrança da infância em Dois Rios, na Ilha Grande. Ele em Paris e Córsega, ela em Copacabana - ligados pelo amor ao mar, pelo afeto à mesma mulher e pelas memórias em comum.

Dois Rios é um passo mais firme em direção ao prosaico: Tatiana assume maior coesão narrativa, arrisca nomear os espaços e os sentimentos, e apesar da sua renitente paixão pelo epigrama e pela frase de efeito, investe mais no arco emocional dos irmãos, desenhando a cartografia de autodescobertas que traçam por meio daquilo que Marie-Ange os faz experimentarem. Amar plenamente o outro é difícil porque temos que nos amar plenamente primeiro - e a aventura dos irmãos é se reconquistarem para não perderem a mulher que amam.

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