'Águas de março é a maior das canções'

'Águas de março é a maior das canções'

Cantora diz que é preciso abandonar preconceitos na escolha de repertório

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2010 | 00h00

Em abril de 2008, quando deu sua primeira entrevista para o Brasil, Stacey Kent não falava nem "bom-dia" em português. Em outubro daquele ano, suas músicas tocavam apenas na antenada Rádio Eldorado, mas ela já se tornava cult no País e o TIM Festival, em sua última edição, a trouxe ao Ibirapuera. Desde então, ela resolveu estudar português. A sério. E, hoje, já conversa com certa fluência e lê Fernando Pessoa, Vinicius de Morais, Machado de Assis.

Stacey Kent, como Cassandra Wilson, Diana Krall e Esperanza Spalding, tornou-se uma ponte moderna entre o jazz e o pop. Até 2006, gravava para um selo indie, Candid. A voz delicada e extremamente bem colocada, entretanto, a destacou na cena britânica (vive em Londres) e chamou a atenção da Blue Note. Tornou-se estrela da cena europeia, cantora residente do mais famoso clube de jazz de Londres, o Ronnie Scott"s, ganhou o British Jazz Award e o BBC Jazz Award. Escreveu canções com o escritor Kazuo Ishiguro, vencedor do Booker Prize, e, no ano passado, a França lhe deu a comenda Chevalier des Arts et Lettres.

Por que resolveu gravar em francês?

Minha vida toda eu quis isso. Aprendi a língua quando criança, mas não é minha língua nativa, então tive de me sentir apta primeiro. Você tem de simular que tem a posse da língua tão inconscientemente quanto puder. Não queria que pensassem: Oh, Stacey está cantando em francês para impressionar, por exibicionismo. Não, eu queria sentir de verdade a experiência. Sempre me senti um pouco francesa, por causa do meu avô, Samuel. As pessoas imigram todo o tempo, eu me sinto uma dessas pessoas.

E como escolheu o repertório?

Simplesmente escolhi as mais pessoais, que me diziam mais respeito diretamente. Sem preconceito, com liberdade total. Principalmente, busquei aquelas que me proporcionariam diversão maior, porque de certa forma tudo isso tem muita pureza, é uma reverência de alguém que aprecia essas canções, acima de tudo.

Mas você abre com Les Eaux de Mars (Águas de Março), de Tom Jobim, que tem também versão em inglês mas você nunca gravou. Qual a diferença entre as versões francesa e inglesa?

Na minha modesta opinião, Águas de Março, Waters of March, Les Eaux de Mars, seja como chamem, é a maior canção do planeta. Eu vivo e amo essa canção toda minha vida. Conheço as versões de Elis Regina, João Gilberto, todas inacreditavelmente bonitas. Liricamente, as palavras são diferentes, mas você só tem de ouvir uma vez para saber que está diante de uma pedra de toque da música.

Seu marido, o saxofonista Jim Tomlinson, produz seus discos, toca, arranja, faz tudo. Você nunca pensa em trocá-lo por outro? Por exemplo: se toca sua campainha o Quincy Jones, se oferecendo, o que você faz?

Jim pensa através da música, tem uma grande visão. Seus arranjos são delicados, únicos. Ele me faz bem como artista, como ser humano, como mulher. Mas Jim não é a única pessoa do mundo com quem eu tenho uma química especial. Quincy Jones, que eu conheci, foi uma das pessoas que me incentivaram a cantar. Seria um sonho trabalhar com ele um dia.

Agora que aprendeu português, pensa em gravar um disco cantando em português?

Ah, tem um longo caminho ainda. Estou trabalhando agora com um poeta português, António Ladeira. Escrevemos umas canções juntos e Jim e eu estamos fazendo a música. É um primeiro passo. Espero que um dia nós possamos cantar as nossas próprias canções em português, Jim também estuda a língua. Mas é preciso sentir a poesia internamente. Tenho essa língua em minha vida desde a infância. Estamos fazendo força para ir aí no fim do ano, e pretendo falar apenas português com vocês. Estou estudando duro.

OPINIÕES

"Força de um diamante"

Kazuo Ishiguro, escritor

"O que a distingue de Billie ou Ella é a ausência de amargura."

Skorecki Louis, Libération

"Estilista, intérprete graciosa dos mais belos standards americanos, esses ares de sonho que ela escolhe paciente e inteligentemente, ela ainda sussurra as palavras das canções com uma bela humildade."

Stephen Holden, NYT

"Stacey Kent tem uma voz tão forte e brilhante quanto um diamante à luz do sol. Pode cortar vidro em fatias."

Jonathan Eig, Jazzis

"Uma voz para estimular os sonhos, e o ouvinte se vê em um feitiço encantatório."

Jay Livingston, músico

"Stacey Kent é uma revelação. Não há ninguém cantando hoje que possa ser comparada a ela. Ela tem o estilo das grandes, como Billie Holiday e Ella Fitzgerald. E canta as palavras como Nat Cole - com clareza, limpeza e pronunciando as frases quase como numa conversa."

Áudio. Ouça trecho de Les Eaux de Mars

estadão.com.br/e/d5

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