''Aguardem: ainda vou ser o Robert de Niro da Ásia'', diz Jackie Chan

Ator chinês comenta estreia dramática no novo Karate Kid, que chega ao Brasil em 27 de agosto

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

Foto: Thomas Peter/Reuters  

 

Seu personagem se chama Mr. Han no novo Karate Kid, que estreia dia 27 de agosto nos cinemas brasileiros, depois de arrebentar nos EUA. Justamente no fim de semana de lançamento, em primeiro lugar nas bilheterias, Jackie Chan e Jaden Smith, filho do astro Will Smith, foram divulgar o longa de Harald Zwart no Sony Summer, evento de verão com que a distribuidora divulgou, no México, suas atrações para 2010/11. Tiete que se preze estende o tapete vermelho para Jackie Chan. Seu nome virou sinônimo de violência cômica em filmes que rodam o planeta. Grande astro na Ásia, ele conquistou a "América", mas ainda faltava uma coisa.

Jackie Chan é um palhaço consumado. É impossível não rir durante uma entrevista com ele. "Estava em casa quando tocou o telefone. Era Will Smith querendo falar comigo. Disse que estava produzindo um novo Karate Kid e que gostaria de me ter no filme. De cara, perguntei - quem será Mr. Myiagi? "Você", ele respondeu. No fundo, ainda pensava que poderia fazer o discípulo, não o mestre."

Existem poucos astros do calibre de Jackie Chan no cinema atual. Iguais que ele, só Jet Li e, talvez, Mark Dacascos. O tempo está passando para esses monstros sagrados das artes marciais. Chan não tem mais idade para fazer Daniel-san, de Karate Kid, personagem que consagrou Ralph Macchio na série A Hora da Verdade, realizada por John G. Avildsen entre 1984 e 89. Mas, como ele admite, tomou um choque ao ser sondado para fazer Mr. Han, o novo Mr. Myiagi. "Pensava em Noryiuki "Pat" Morita, que fazia o papel, no original, e não conseguia me ver no lugar dele. Will (Smith) me convenceu. Me garantiu que o remake seria outro filme, diferente do original. Tenho de lhe agradecer. Durante muito tempo, tentei mostrar ao público que não sou só um comediante, ou um herói de ação. Sou um ator, capaz de representar. Mr. Han é o personagem mais dramático que já fiz. Marca uma mudança para mim."

Uma dupla mudança - por mais que o nome de Jackie Chan seja importante para fãs de artes marciais ao redor do mundo, o Karate Kid de 2010 foi formatado por seu produtores, o casal Will Smith/Jada Pinkett-Smith, para o brilho do filho deles. Jaden Smith é Daniel-san, o astro de Karate Kid. Chan é coadjuvante. "Will me provocava - "Jackie Chan sem ação? Faça!" E eu fiz. Tenho poucas cenas de ação, só uma luta. Aguardem, ainda vou ser o Robert de Niro da Ásia", ele brinca.

Jaden Smith passou por treinamento especial para fazer o filme. Abrir as pernas naquele ângulo, formando uma reta, foi o mais difícil. "Jackie foi muito bacana comigo", ele conta. O próprio Chan diz que teve de encarnar o mestre em frente e atrás das câmeras. Terminou viajando nas lembranças. "Comecei com 7 anos e logo já estava adulto, mas meu pai acompanhava as filmagens, preocupado de que algo me acontecesse. Tinha de aproveitar as ausências dele para fazer os stunts perigosos."

Jackie Chan ficou famoso por dispensar dublês. No início, foi por necessidade. "Os filmes eram tão pobres que não tinham dublês. Ou a gente fazia, ou desistia da produção." Ele confirma as lendas de que dublou Bruce Lee e também que quebrou todos os ossos fazendo filmes. Está mais prudente. A própria incorreção política está sendo reavaliada, mas não para atender a exigências de mercado (nos EUA). Os filmes de Jackie Chan raramente destilam pérolas de sabedoria oriental. São pura pauleira, mas em Karate Kid Mr. Han não bate por bater e sim para proteger Jaden Smith, que está sendo alvo de uma truculenta galeria de garotos. A moçada é preparada por treinador inescrupuloso, a cara da nova China capitalista, que desperta neles o conceito de "no mercy" para o adversário.

Nos filmes antigos da série, Mr. Myiagi ficava exortando para Daniel as virtudes do caratê como disciplina de paz, mas o público só queria saber do desfecho, quando Ralph Macchio, enfim, aplicava seu corretivo, rebentando os adversários. O novo filme poupa o público desse tipo de cinismo. A história foi transposta para a China e, apesar do título, é mais de artes marciais (tradicionais) que de caratê. Jackie Chan não superestima o sucesso em Hollywood. Ele já aprendeu que os filmes que mais fazem sucesso nos EUA não são, necessariamente, os que agradam aos asiáticos.

Chan criou uma fundação para ajudar crianças carentes em todo o mundo. É um homem de família e, pesquisando para um documentário, descobriu que tem meios irmãos e irmãs na Austrália e na China (vive em Hong Kong). Seu filho, Chan Cho Ming, preferiu ser músico para não competir com o pai. Seu novo CD é recordista na Ásia e ele finalmente fez um filme, que estourou em Hong Kong. "Aproveite, porque quando estrear Karate Kid não haverá mais para você", ameaçou papai. Mentirinha. A última coisa que Jackie Chan quer é competir com o filho.

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