Água para Burdon

Redescoberto pelas novas gerações, o engajado inglês de 71 anos que fez história com o Animals se mantém na ativa em causas ambientais, disco novo e turnê

BENTO ARAÚJO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2013 | 02h09

Ele está prestes a completar 72 anos e já cantou sobre bordéis em New Orleans, noites de verão em São Francisco, o festival de Monterey e chegou até a dedicar uma canção, A Girl Named Sandoz, ao laboratório suíço que inventou o LSD, em 1938. Hoje, a preocupação maior deste septuagenário é a água.

Quem despertou a consciência de Eric Burdon foi Mikhail Gorbachev. Há alguns anos, o ex-vocalista dos Animals foi até a Alemanha participar de um programa de TV e lá conheceu o ex-chefe de estado soviético. Burdon estava diante de um dos homens que mudaram o mundo moderno; perguntou então qual seria o próximo grande problema que o mundo teria de enfrentar. "Água", respondeu Gorbachev. Bastou para o vocalista britânico escrever duas músicas sobre o assunto, Water e 'Til Your River Runs Dry, esta última título de seu novo álbum, o primeiro disco solo em seis anos. Burdon desejou de alguma forma fazer parte da luta de Gorbachev, a de alertar o planeta em relação à importância da água potável.

Como todo bom sacana da velha guarda do rock inglês, Burdon não se prendeu apenas ao papo-cabeça de meio ambiente, religião e política. Fez duas homenagens a seu maior ídolo, Bo Didley, em Bo Diddley Special e na versão para Before You Accuse Me, escrita por Ellas McDaniel, o nome verdadeiro de Didley, em 1958. 27 Forever é também uma das melhores do novo trabalho, remetendo à maldição de astros que se foram aos 27 anos: Robert Johnson, Jimi Hendrix, Brian Jones, Kurt Cobain, Janis Joplin, Jim Morrison, Amy Winehouse e tantos outros. Além disso, muitas das canções de 'Til Your River Runs Dry são autobiográficas, como Old Habits Die Hard, em que canta: "Esse mundo não é para mim / Vou fazer um novo, espere e verá". A ideia surgiu da relação do vocalista com estudantes que conheceu nas barricadas da Paris de 1968.

Há quase 50 anos Burdon apareceu para o mundo como o vozeirão que entoava o standard folk The House of the Rising Sun. Até Agnaldo Timóteo fez sua versão, A Casa do Sol Nascente, mas o hit dos Animals foi o mais bem-sucedido dentre as centenas de releituras. Outros sucessos passaram pela garganta poderosa de Burdon, Don't Let Me Be Misunderstood, Bring It On Home to Me, It's My Life, We Gotta Get Out of This Place, Don't Bring Me Down e See See Rider. De ícone da British Invasion se tornou poeta lisérgico do fim dos anos 1960, quando liderou uma versão modernizada e americanizada da banda, batizada como Eric Burdon and The Animals ou até mesmo Eric Burdon and the New Animals. Morando em São Francisco, em 1969, fundou Eric Burdon And War, amparado pela banda de funk pesado. São desse período os hits Spill the Wine e Tobacco Road. Um ataque de asma em pleno palco o impediu de continuar excursionando com o War.

Recentemente, Burdon ganhou uma espécie de sobrevida e vem sendo redescoberto pelas novas gerações. No ano passado participou do descolado festival/convenção South By Southwest, em Austin, Texas, dividindo o palco com Bruce Springsteen.

Foi nessa ocasião que o veterano rocker conheceu o grupo garageiro The Greenhornes, que trata o catálogo dos Animals com reverência quase espiritual. Burdon ficou tocado, assim como os garotos, que tomaram coragem e convidaram seu guru para a gravação de um EP de quatro faixas. Convite aceito. Estava montado Eric Burdon and the Greenhornes, projeto que gravou o disco de mesmo nome, num único fim de semana e ainda o lançou no fim do ano passado como item exclusivo do Record Store Day. Mais cool que isso impossível. Mas não é só, o EP impressiona pela vitalidade renovada de Burdon.

Depois de lançar dois trabalhos em questão de três meses, ele segue adiante. Começou nova turnê americana e prepara o seu terceiro livro de memórias. Sua exploração pessoal e solitária continua; como um animal em extinção dentro da turbulenta cena rock atual.

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