Agora é hora!

Como os previdentes se orgulham do seu timing, no fundo, também gostam de ver a falha alheia

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2020 | 21h45

As pessoas que trabalham comigo conhecem uma frase que virou quase um mantra: “agora é hora”. É uma ironia/reclamação sobre coisas lembradas ou feitas em momento inadequado. É uma alusão à falta de “timing”, de cronometragem estratégica.

Quando a frase aparece? Alguém faz um voo comigo de duas horas. Quando o avião pousa e estamos indo embora, a pessoa precisa ir ao banheiro naquele instante. “Agora é hora”, eu digo. Estou em casa o dia todo e, saindo para um compromisso, alguém fala de uma lista de coisas que eu devo fazer antes de sair de casa. A frase volta. Por vezes, só posso pensar. Sou convidado para um almoço e nos sentamos todos à mesa. A pessoa que convida levanta-se porque não há guardanapos. Cinco minutos após, observa que não colocou uma jarra de água. Nova interrupção. A salada? Começa e, ops!, o azeite tinha permanecido na cozinha. Até o cafezinho, já houve uma atividade física louvável de se sentar e se levantar e meu cérebro repete: “agora é hora”.

O famoso timing é a capacidade de pensar um sistema antes de surgir a necessidade. Tento entender sempre a origem. Todos já esquecemos alguma coisa. Porém, existem pessoas “post-facto”, “a posteriori”, “faísca atrasada” e outros termos eruditos ou chulos. A necessidade faz a ação e nunca pode ser antecipada. Uma amiga, em plena quarentena, mandou mensagem gentil aos nossos celulares: fará um brinde por ocasião do aniversário dela. Horário marcado e repassado várias vezes: 20h. Ela pede que todos estejamos preparados para o evento virtual. Passa um link para o grupo com a lembrança do horário e do objetivo: erguer uma taça à vida que, mesmo afastados temerariamente, celebraremos. Cinco minutos antes, reforça o link e o objetivo único do encontro: o brinde! As pessoas vão ligando as câmeras. Ao lado do meu computador, meia hora antes do evento, disponho um balde de gelo e uma minigarrafa de champanhe. Rolha semiaberta para não atrasar ninguém. Fico olhando para o relógio e pela taça lavada e sobre um guardanapo. O horário chega! Os rostos conhecidos e felizes vão surgindo. Alegria, votos, frases de celebração fluem pelo espaço. São poucos e seletos os convidados à festa virtual. A aniversariante ergue a taça e nos convida ao declarado brinde. O que acontece? Duas pessoas dizem ter se esquecido da bebida. Saem da imagem e vão procurar uma garrafa e um copo. Demoram. Ficamos com as taças no ar, esperando as faíscas tardias. Uma volta com uma garrafa e demonstra dificuldades com a rolha. Outra constatou que nada tinha em casa e encheu um copo de água. Meu cérebro já repetiu dez vezes: “agora, de fato, é a hora...”

Como eu já disse, todos nos esquecemos de algo em algum momento. Não há ser humano imune à falha da memória. Alguns abusam, contudo. Minha pergunta é sobre o caráter pedagógico de cada erro. Esqueceu-se? Acontece? Quais as medidas para que o fato não se repita. Lista de tarefas? Cartazes diante do computador: “é um brinde, traga uma bebida!”. Alarmes de celular? A falta de estratégia atinge também a escassez de soluções para evitá-la.

Existem procrastinadores crônicos, indivíduos que deixam tudo para a hora derradeira. Necessitam da adrenalina do prazo se esgotando. Curiosamente, possuem bastante consciência do que devem fazer, apenas estão viciados na tensão de saber se conseguirão. Falo de outra categoria existencial: as pessoas incapazes de pensar o minuto futuro, o dia seguinte e o resto da vida. Seguem a bela música de Zeca Pagodinho: “deixa a vida me levar, vida leva eu”. São, em geral, mais leves do que os estratégicos ansiosos como eu sou. Talvez confiem na simpatia humana universal, que serão compreendidos sempre, que podem sorrir ou usar do recurso sedutor: “Ah, Leandro, você que é tão previdente teria trazido um guarda-chuva extra? Teria uma aspirina na sua mochila? Um lenço de papel?” Como os previdentes se orgulham do seu timing, no fundo, também gostam de ver a falha alheia porque ela é o carvão que serve de contraste ao seu suposto diamante. Se eu já escrevi aqui que um casal precisa de um jardineiro e de uma flor, o estratego está cercado de pessoas caóticas quanto ao item em questão.

Pode ser uma divergência de interpretação bíblica. Talvez conheçam a abertura do terceiro capítulo livro do Eclesiastes: tudo tem seu tempo e sua hora. Para o estratégico gestor de tempo, é o momento anterior. Para o ser “a posteriori”, é o instante que decorre após a demanda ter surgido. O capítulo encerra anunciando que o tempo de Deus é eterno e que nós, humanos, não voltaremos para ver o que será depois da nossa morte. Assim, tanto os ansiosos com a estratégia como as pessoas mais tranquilas morrerão um dia. Nenhum retornará para ver a obra milimétrica de um e a reação caótica de outro. Aquele que tudo dispôs previamente e aquela que decidiu ir atrás da garrafa depois de iniciado o brinde, ambos repousarão no fundo do solo ou em uma urna de cinzas. Claro, eu que repito o mantra da hora já arranjei tudo sobre meu enterro. Lá, do meu caixão já pago e com o fundo musical determinado há anos e testamento preciso e flores exatas, rirei da minha amiga na capela ao lado que a todos pegou de surpresa com o passamento. Verão meu cadáver irônico e frio murmurar de forma estranha e quase inaudível: “agora é hora!”. Boa semana para quem é “da hora”. 

É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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