Agora, conta outra

Nova geração de noveleiros determina ritmo mais ágil às tramas

CRISTINA PADIGLIONE, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h08

Um tiroteio em novela do veterano Manoel Carlos pode durar mais de uma semana no ar. Já se a bala for disparada em folhetim de João Emanuel Carneiro, o espectador pode perder o enterro da vítima se apenas for à cozinha. Até que ponto a criação de uma nova geração de autores afeta a narrativa da telenovela?

"Cada escritor tem a sua visão de mundo, suas experiências profissionais e de vida", defende Ricardo Linhares, supervisor de Cheias de Charme. "A nova geração enriquece a linguagem da novela ao agregar o olhar contemporâneo", continua. "Cheias de Charme é um exemplo perfeito. Há muito tempo eu não via uma trama tão antenada com a época em que vivemos, usando a internet, a música pop, o culto a celebridades, as mulheres como cabeça das famílias".

"Não acredito muito nessa coisa de geração, acho que novos autores podem repetir velhas fórmulas e autores consagrados podem se reinventar", fala Filipe Miguez, coautor de Cheias de Charme. E emenda: "É cedo pra fazer um balanço da contribuição desta nova safra de autores, mas eu arriscaria que haverá na nossa produção ficcional uma forte influência dos inspiradíssimos seriados americanos, desbancando o lugar do cinema para as gerações anteriores de roteiristas. As melhores ideias hoje estão nesses seriados."

Referência. Estreantes na próxima novela das 6, João Ximenes Braga e Cláudia Lage, ambos com 42 anos, foram alfabetizados vendo Escrava Isaura (1976). "Novela não emburrece, ao contrário. Ver Escrava Isaura enquanto estava aprendendo a ler foi o que me abriu as portas para gostar de narrativas", diz Ximenes. "Adolescente nos anos 80, quando o movimento cineclubista era forte no Rio, eu não via contradição em assistir a uma mostra de Godard, ver a novela das nove, ouvir um disco de punk rock e depois ir pra cama com um livro de Dostoievski ou Nabokov."

Professor das oficinas de autores da Globo, Mauro Alencar, doutor em telenovela pela USP, endossa que "o autor, em qualquer narrativa, é a base da pirâmide dramatúrgica".

Foi graças à oficina de autores que surgiram nomes como Ximenes, Cláudia Lage e Vincent Villari, um caso excepcionalmente precoce. "Enviei para a emissora um roteiro que era a adaptação do poema Quadrilha, do Drummond", conta Vincent. "O Flávio de Campos, coordenador da oficina, ficou um pouco perplexo com a discrepância entre a minha pouca idade e o furor melodramático do meu texto. Na época, eu tinha 16 anos, mas não hesitei em me mudar para o Rio."

Se vale uma receita para alcançar sucesso no ofício, Izabel de Oliveira, estreante com Cheias de Charme, enumera: "Ser apaixonado pelo folhetim; ter orgulho de ser melodramático; ter uma mente engenhosa; ser muito organizado; ter capacidade de trabalho; disponibilidade para trabalhar; saber se colocar no lugar do outro, pensar como o outro, falar como o outro e gostar de contar histórias."

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