Clayton de Souza/ Estadão
Clayton de Souza/ Estadão

Agnès Jaoui subverte contos de fadas em filme

Diretora francesa está no Brasil para falar de 'Além do Arco-Íris' e participar do Festival Varilux de Cinema Francês

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2013 | 02h09

O que acontece quando Cinderela é, na verdade, um rapaz? Chapeuzinho Vermelho troca o príncipe pelo Lobo Mau, que, na verdade, é crítico e produtor musical. Quando Geppetto é, de fato, um anti-Geppetto, que, em vez de buscar seu filho e a relação humana real, repele a vida em família e prefere a solidão? Para completar, o rei ganancioso é um megaexecutivo poluidor do meio ambiente, casado com a madrasta da Branca de Neve que, não por acaso, é viciada em tratamentos cosméticos e obcecada por se manter jovem. Acontece, o novo filme da atriz, roteirista e diretora Agnès Jaoui.

Aos 48 anos, esta francesa que já assinou, com o parceiro Jean-Pierre Bacri, roteiros para mestres como Alain Resnais (Smoking/No Smoking e Amores Parisienses), e dirigiu, entre outros, os ótimos O Gosto dos Outros (indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2000), e Uma Questão de Imagem, Agnès está no Brasil esta semana para falar de Além do Arco-Íris e participar do Festival Varilux de Cinema Francês 2013.

"Com este filme, mais que subverter os contos de fada, quis dizer ao espectador que não há uma forma de amor, mas muitas. E que não devemos nem esperar o príncipe encantado e muito menos aceitar que ninguém nos diga como devemos viver", comentou a diretora ao Estado em um (quase) perfeito português, idioma aprendido em viagens a passeio no Brasil, onde ela tem vários amigos, e para se comunicar melhor com os dois filhos. "Falo um portunhol misturado com o francês e italiano, mas é um idioma que adoro. Além de ter aprendido para cantar (adoro a música brasileira), também aprendi com meus dois filhos, duas crianças lindas nascidas no Rio, que tinham 5 e 7 anos quando os adotei", contou.

Sobre cinema, direção, atuação, feminismo, fidelidade e Além do Arco-Íris, que tem distribuição da Pandora Filmes e estreia no País em 7 de junho, Agnès deu a seguinte entrevista ao Estado.

Desde O Gosto dos Outros, sua estreia na direção, você se sente uma diretora muito mais madura?

Sim. Mas amadureci como atriz antes de me tornar uma diretora madura. Isso porque decidi escrever roteiros e filmar porque queria criar boas histórias para que eu mesma pudesse atuar.

Laura é garota moderna que, apesar de viver em um mundo contemporâneo e liberal, sonha com o Príncipe Encantado?

Sim. Há muito de mim nela. Apesar de ter tido pais que me criaram sob pilares do psicanalismo e do feminismo, estava, na verdade, esperando o Príncipe Encantado. Queria ser livre, ter minha própria vida, mas, ao mesmo tempo, estava condicionada, inconscientemente, a querer o 'final feliz', como os que foram escritos pelos Irmãos Grimm há séculos e até hoje influenciam meninas do mundo todo.

Laura vai dos braços do Príncipe direto para os do Lobo Mau.

Sim. Mas faz parte de seu amadurecimento. As mulheres ainda se culpam muito por seus erros. Mas errar é normal. A mitologia, os arquétipos femininos, ainda são muito redutores. Não temos muitas opções. Como a história sempre foi contada por homens, as opções acabavam sendo castradoras. Precisamos reescrever os contos de fadas.

O diálogo de Marianne (interpretada por você, que é tia e fada madrinha de Laura), sobre fidelidade é libertador.

Sempre que ouço mulheres reclamando que homens são infiéis e nosso destino é suportar isso, pois somos boas e os homens, maus, me pergunto: 'Será que sou homem?' Isso é um clichê. Fidelidade é algo que depende de cada casal, mas esse velho conceito de fidelidade, de crucificar quem deseja outra pessoa, é louco. Não defendo a infidelidade, mas o ser humano é feito de desejos. É hormonal, é a vida. E se negamos esse desejo, mesmo que não o concretizemos, vamos ficar loucos e infelizes. Mas acredito no amor. Só acho que não há apenas um modelo que serve para todos. É preciso que cada um escreva seu conto de fadas.

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