Agnès Jaouï reinventa os contos de fadas

Além do Arco-íris discute a fixação das pessoas por finais felizes

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2013 | 02h09

Havia muito tempo que Agnès Jaouï e Jean-Pierre Bacri discutiam a possibilidade de um filme inspirado em contos de fadas. Agnès quem? Essa é uma pergunta que o cinéfilo de carteirinha jamais se fará. Agnès e o companheiro - Bacri - são roteiristas (já escreveram, para Alain Resnais, Smoking/No Smoking e Aquela Velha Canção) e ela também dirige. Adoram o Brasil. Agnès chegou a adotar um casal de crianças brasileiras. O menino é um príncipe. Aperta a mão, pergunta: "Como vai, monsieur?"

O filme sobre os contos de fadas finalmente saiu. Chama-se, no original, Au Bout du Conte, No Fim da História. No Brasil, ficou sendo Além do Arco-íris, um título que talvez coubesse melhor no filme anterior da dupla, Parlez-Moi de Pluie. Além do Arco-íris inspira-se no fato de que os contos de fadas sempre terminam com o invariável "...e viveram felizes para sempre". Viveram mesmo? Qual é a possibilidade de finais felizes no mundo moderno?

Além do Arco-íris é um filme-coral, no sentido de que entrelaça várias histórias. A que seria, digamos, a protagonista é uma garota que sonha com seu príncipe encantado e, quando encontra o homem que parece o ideal, o problema é que esbarra em outros pretendentes e isso no momento em que todo o mundo ao seu redor parece em crise. Há uma mulher que sonha ser atriz e faz de tudo para que isso aconteça; um rapaz que tem talento para ser compositor, mas não acredita que conseguirá chegar lá; há uma garotinha que acredita em Deus; e um homem que não acredita em nada.

Todas essas pessoas e histórias se cruzam em mesas de refeições, em meio a muitas conversas, mas o fim da trama está desenhado além do arco-íris. Vai dar tudo certo? "Sou otimista por natureza e tendo a acreditar na possibilidade de o ser humano resolver seus problemas e ser feliz. Só que a felicidade não é um estado permanente. Já fiz um filme, Parlez-Moi de Pluie, para mostrar como até a meteorologia influencia no humor da gente. Além do Arco-íris é a reafirmação dessa crença, malgré tout, apesar de tudo."

Agnès Jaouï disse isso num encontro com o repórter no Rio, durante o Festival Varilux do Cinema Francês. Agora, em Paris, após o Festival de Cannes, o repórter teve um encontro - organizado pela UniFrance - com o parceiro de Agnès, na arte e na vida, Jean-Perre Bacri. "Nossa média entre filmes é de quatro anos. Precisamos disso para nos distanciarmos do filme anterior, sedimentarmos novas ideias e também para escrever e para que Agnès, depois, realize. A direção não é minha praia, mas adoro ficar no set, ajudando na direção de atores."

Agathe Bonitzer, que faz a garota, Laura - é também a atriz de Uma Garrafa no Mar de Gaza, de Thierry Binisti -, disse ao repórter, no mesmo encontro em Paris, que os diálogos de Agnès e Jaouï são tão bem escritos que soam naturais, sem necessidade de improvisação. "Minha personagem é sonhadora, acredita nos contos. Agnès e Jean-Pierre me pediram para interpretá-la de forma realista. A decalagem, quando existe, o lado fantástico, está na cenografia e nos figurinos. Por exemplo, visto-me de vermelho, como Chapeuzinho, e se há uma Chapeuzinho, há um lobo."

A própria Agnès revela um carinho especial por Além do Arco-íris, mesmo que O Gosto dos Outros siga imbatível como seu filme de maior sucesso (no Brasil como na França). Ela concorda que o filme marca uma evolução em seu estilo de narrar. Agnès nunca usou tanto plano-sequência. Um deles tem mais de 4 minutos. "É um virtuosismo, reconheço, mas o bom é que as pessoas, ligadas no diálogo, nem percebem como o filme é feito", diz.

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