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Laura Greenhalgh
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Agitação no terreiro

A primeira vez que toquei a campainha no número 33 da Rua Alagoinhas, o dono da casa estava bem de saúde. Um empregado abriu o portão no térreo e eis que Jorge nos recebeu na sala de visitas, piso acima. De short, camisa desabotoada, chinelo. Sobre a mesa de jantar, minha amiga Christiane Fleury e eu notamos papéis desordenados e... a máquina de escrever! Velhos tempos, início dos anos 90. Fomos até a famosa casa do Rio Vermelho, em Salvador, ponto de encontro de artistas, intelectuais e descolados, além de endereço onde Jorge Amado e Zélia Gattai criaram os filhos, só para combinar com ele os passos de uma reportagem.

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2014 | 02h09

Seria preciso montar todo um esquema para o nosso fotógrafo, encarregado não só de retratar os moradores, como detalhes da casa. Detalhes que o próprio Jorge foi revelando às duas jornalistas, num tour informal. A todo momento deparávamos com oferendas, ou ebós, pelo jardim, no quintal, em cômodos fechados. O sagrado estava por toda a parte no lar daquele ogã de Oxóssi, depois feito obá de Xangô com as bênçãos de Mãe Senhora, uma das maiores ialorixás da Bahia em todos os tempos. Guardo desse encontro a religiosidade entranhada na vida do casal e a imagem de Jorge falando ao telefone com uma amiga de Paris, num francês com delicioso sotaque baiano.

A segunda vez que toquei a mesma campainha foi em 2000. A casa estava triste e silenciosa. Sua dona, idem. Havia marcado uma conversa com Zélia sobre o lançamento de um de seus livros. Não pude ver Jorge, a não ser pela fresta da porta do quarto. Ele repousava numa poltrona, ao lado de uma enfermeira que lhe colocava compressas nas têmporas. Cismei que tinha a ver com a doença degenerativa nos olhos. Talvez.

Com força e simpatia, Zélia repassou a vida de ambos nesse encontro. Mais do que marido e mulher, eram parceiros. Lembrei da dedicatória que ele escreveu para ela em Bahia de Todos os Santos - Guia de Ruas e Mistérios, cuja primeira edição data de 1944. "Aqui neste jardim onde cresceram nossos filhos e crescem nossos netos, entre as árvores que plantamos, no culto da amizade, tomo de tua mão de namorada e te proclamo Zélia de Euá, companheira, jovem coração irredutível, única e sem comparação."

Sabia que a saúde dele se deteriorara (morreria meses depois, em 2001). Para Zélia, perdê-lo seria como confrontar um abismo, o desconhecido. De repente, passou a me falar do marido no ordenamento do candomblé.

Soube então que Jorge era uma tremenda autoridade religiosa, que os atabaques silenciavam à sua chegada no terreiro e depois rufavam com vigor. Ela contou que, um belo dia, uma jovem empregada da casa, filha de santo iniciante, deu de virar a cabeça incorporando um espírito infantil. Daí trocava a vassoura pela traquinagem: subia nas mesas, derrubava cadeiras, escondia-se nos armários, esparramava os papéis, o tempo todo chamando o patrão para brincar. "Quando já não sabíamos o que fazer, Jorge teve uma ideia: chamem o Carybé!", lembrou Zélia.

Foram buscar aquele a quem o escritor definia como "o mais baiano de todos os baianos", embora fosse argentino, "nascido no mar, nos ilícitos amores de Yemanjá com um certo senhor H.J.B. Bernabó, de duvidosa nacionalidade". Obá do Ilê Axé Opó Afonjá, eis que o grande pintor e ilustrador usou dos dotes religiosos para convocar os orixás, que terminaram por libertar seu velho amigo da moleca turbinada. Desarmou-se o feitiço e todos riram para sempre do caso.

***

Tanto a obra literária de Jorge Amado quanto a obra artística de Carybé extrapolaram fronteiras, alcançando expressão universal. Teriam ido tão longe sem o mergulho que fizeram na ancestralidade negra, esse elemento culturalmente untuoso e identitário do País? Teriam criado sem se deixar levar por um imaginário nos quais os limites entre crença e superstição se confundem? Certamente são perguntas que não ocorreram ao juiz Eugênio Rosa de Araújo, da 17.ª Vara da Fazenda Federal do Rio de Janeiro, que numa sentença sui generis decretou que candomblé e umbanda não têm status de religião, por não se originarem de textos sagrados como o Corão e a Bíblia. O juiz poderia ter assinado o despacho bem simplesmente: "Deus".

Atabaques rufaram na sequência. Houve reações contra a sentença que, na verdade, decidiu pela manutenção de vídeos públicos que insistem em escrachar o povo dos terreiros. E o meritíssimo sentiu o tranco das forças da natureza. Logo veio a público anunciar que reformara seu veredicto, "pois o forte apoio dado pela mídia e pela sociedade civil, demonstra, por si só, e de forma inquestionável, a crença de tais religiões". Chamou a guinada de seu julgamento de "adequação argumentativa". Vale um prato do caruru de Cosme e Damião, servido em setembro, quem arrumar o melhor sinônimo para a expressão.

Tudo parece resolvido com a meia-volta do juiz, ainda bem, mas restam os ecos do episódio. No balcão das religiões, hoje se disputa a clientela. Ou seja, fiéis. Certas denominações se embolam, agridem e se agridem na tentativa de garantir reserva de mercado. No que diz respeito às religiões afro, que penetraram fundo na alma brasileira, nada se ganha com o ataque sistemático aos orixás que aprendemos a chamar de "santos", prova do nosso sincretismo. Ao contrário, a fanatização que leva do besteirol à intolerância só vem crescendo. Prefiro então pensar na perda cultural.

Imagine Vinicius e Baden tolhidos num fervor criativo que os fez compor belos afro-sambas... Imagine se Mestre Didi, filho de Mãe Senhora, falecido no ano passado, fosse apenas um artista de galeria e não um escultor do sagrado, portador da tradição nagô. Imagine se Jorge Amado não tivesse mergulhado no mundo dos encantados. Teríamos um personagem como Jubiabá? Pedro Arcanjo se enamoraria de Rosa de Oxalá? Dona Flor faria aqueles quitutes suspirando por Vadinho? Na casa do Rio Vermelho, o escritor embebeu o cotidiano em magia, seduzido por mistérios que condimentam a vida. Para o sociólogo Reginaldo Prandi, estudioso das religiões afro-brasileiras, talvez não haja melhor fermento literário.

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