Afrodisíacos

É verdade que alguns dos recursos a que o homem recorria no passado, como chifre de rinoceronte pulverizado, não fazem falta

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2017 | 02h00

Existe uma vasta literatura sobre afrodisíacos - quase toda ela em francês, claro.

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Mme. de Maineton mandava fazer costeletas de vitela com anchovas, basílico doce, cravo, coentro e conhaque para animar o Luis XIV. Não se sabe o resultado que elas produziam no rei mas o prato “Côtelettes de Veau à la Maintenon” é famoso até hoje, um exemplo de efeito colateral histórico. Já Mme. Du Barry fazia fé em suflês de gengibre para manter o interesse de seu amante real, Luis XV. Dizia que ele nunca desandava. O suflê, não o rei.

Alcachofras eram consideradas afrodisíacas. E o escritor Hector Dirssot preparava-se para noites de loucura na alcova comendo enguias com trufas, enroladas em papel amanteigado, assadas na brasa e servidas sobre um ragu de siri apimentado, e que só tinham o efeito desejado se acompanhadas por um bom vinho Sauternes. Não se conhece qualquer depoimento de uma parceira do escritor sobre a eficiência da receita. Pela sua descrição, desconfia-se que muitas vezes Dirssot recorria ao prato não para assegurar o sexo mas para substituí-lo.

As trufas brancas da região do Piemonte já foram consideradas infalíveis, e ficavam ainda mais estimulantes se preparadas com fígado de ganso e um pouco de vinho branco. Brillat-Savarin escreveu que uma determinada senhora francesa quase sucumbiu ao assédio de um jovem gourmet que lhe propunha servir aves com trufas de Perigueux em troca de amor, e sua admiração era menos pela sólida virtude da dama do que pela sua resistência, decididamente inexplicável. Brillat-Savarin insinua que o pretendente insistiu e a dama resistiu até ele oferecer trufas de Perigueux inteiras assadas na cinza, porque aí também já seria desumano.

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Todas estas receitas – tiradas, por sinal, de um livro de George Lang chamado Compêndio de bobagens e trivia culinárias – ficavam melhores e mais poderosas se acompanhadas de um “Vin de Gentiane”, ou vinho de genciana, assim preparado: rale-se uma raiz de genciana e deixe-a de molho no Conhaque por um dia. Acrescente-se vinho Bordeaux, filtre-se tudo por uma peneira fina e deixe-se num receptáculo lacrado por oito dias. Não abrir perto das crianças.

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– Você já ouviu falar de vinho de genciana?

– Não. Por que?

– Eu estava lendo que parece que genciana é afrodisíaco.

– Eu nem sei o que é isso.

– Afrodisíaco?

– Não. Genciana.

– Nem eu. Vamos ver no dicionário?

– Deixa ver. Ge, ge, ge... “Genioso”, “genista”, “genital”...

– Quando você era pequeno, não procurava nome feio no dicionário?

– Procurava! Me lembro quando eu descobri que no dicionário tinha “bunda”. Foi uma sensação. 

– Como a gente era boba, né? 

– “Genitália”...” genitivo”... Espera aí, estou olhando na página errada. “Genciana”... “genciana”... Está aqui! “Genciana”. Hmm... “Planta da família das gencianáceas...”

– Qual é a família?

– Gencianáceas. Por que, você conhece?

– Não, não. Foi a maneira como você disse. Achei...

– O que?

– Bonitinho. 

– “Gencianáceas”...

– Me beija!

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Hoje, com a química, toda esta literatura ficou ainda mais antiga. Trufas, enguias, ostras, raiz de genciana, tudo foi substituído por pílulas. É verdade que alguns dos recursos a que o homem recorria no passado, como chifre de rinoceronte pulverizado, não fazem falta. Mas a humanidade perdeu alguma coisa quando perdeu o risco de morrer de congestão durante o ato sexual, depois de se empanturrar para garantir que ele seria bom. Diminuiu-se a nossa aventura sobre a Terra. E fico pensando naquele ragu de siri... 

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