África em fotos, no MIS

Impossível pensar na África sem lembrar de miséria, guerras e diferenças sociais. Mas tantos problemas não são suficientes para desviar o olhar das belísssimas paisagens que o continente esconde. São essas duas faces de uma mesma terra que o Museu da Imagem e do Som (MIS) mostra a partir dessa terça, com a exposição Duas Áfricas: Namíbia e Moçambique por Alfredo Camargo e Marcelo Vigneron.A mostra reúne em 25 imagens o contraponto entre o registro do deserto do Namib, o segundo maior da África, que permeia a maior parte da orla da Namíbia, e o trabalho de reconstrução de Moçambique após a guerra civil. "O mais interessante dessa mostra é perceber duas nuances tão diferentes de um continente que pensamos ser único", diz Paulo Angerami, coordenador de fotografia do MIS. Os dois registros fazem parte do Programa MIS de Fotografia, que recebeu no início do ano centenas de trabalhos de temas mais do que variados. "Tentamos ao máximo agrupar os assuntos; mas, no caso de Duas Áfricas, o que mais chama atenção é o contraste", explica Angerami. De um lado está a cor do deserto. Do outro, o preto-e-branco da reconstituição moçambicana. Os temas e as técnicas utilizadas podem ser contrastantes, mas o fascínio e a poesia são os mesmos. "A fotografia documental de Vigneron não deixa de ter sua poesia e o registro da paisagem de Camargo prova que o deserto está vivo", diz Angerami.A poesia clicada por Vigneron é o trabalho do povo moçambicano em reconstruir suas vidas após a guerra civil, encerrada em 1992. O fotógrafo acompanhou o trabalho realizado pela ONG portuguesa Leigos para o Desenvolvimento nas províncias de Nyassa e Tete, no interior do país, em maio do ano passado. Cidades, vilas e aldeias moçambicanas passam por um processo de assentamento das populações deslocadas durante o conflito e contam com a ajuda de várias ONGs que prestam serviços de educação, saúde e agricultura."Apesar de muita pobreza, não vi miséria, o que entendo por abandono", conta. "Percebi que o vínculo familiar e a ajuda ainda são muito importantes e foi isso que procurei registrar". Para o fotógrafo, o mais fascinante é encontrar pessoas que estão reconstruindo suas vidas sabendo que o perigo da guerra ainda está presente. "Apesar de os conflitos terem acabado, os campos minados ainda são ameaças reais; todos andam pelos campos em filas indianas; ninguém ousa caminhar a esmo", conta.Deserto vivo - Ao contrário de Vigneron, nenhuma foto de Camargo retrata a presença humana. Mas, por meio das nuances e texturas, o fotógrafo prova que mesmo assim o deserto está vivo. Apesar de Camargo também registrar os tons do deserto em preto-e-branco, a curadoria do MIS optou por mostrar seus trabalhos em cor. "Isso porque a cor, além de registrar com mais fidelidade as colorações tênues da natureza, acentua o contraste entre os dois trabalhos", explica o fotógrafo e diplomata, que morou na Namíbia por três anos.Camargo faz questão de comentar porque preferiu documentar a natureza. Ele conta que, em entrevista a um jornalista, foi questionado se não tinha consciência social. "Apesar de africano, a Namíbia é um país atípico; por ter sido território pertencente à África do Sul por muitos anos, herdou a infra-estrutura", explica o fotógrafo. "É difícil encontrar pobreza; é como estar no primeiro mundo". Para ele, não há sentido em procurar as mazelas por puro clichê. "Muitas vezes, o clichê é ideal porque reflete a realidade, mas o fotógrafo não pode ficar preso ao social"."Duas Áfricas". De terça a domingo, das 14h às 22h. MIS - Museu da Imagem e do Som. Avenida Europa, 158, tel. 852-9197. Até 23/7.

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