África Descoberta

Fórum das Letras, que termina hoje em Ouro Preto, foi palco de debates sobre a relação das culturas afro e brasileira

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2010 | 00h00

Sotaques distintos da língua portuguesa se misturaram no Fórum das Letras de Ouro Preto, encontro literário que termina hoje e que, em sua sexta edição, promoveu discussões sobre os laços culturais entre Brasil e países africanos de idêntico idioma. Angolanos, moçambicanos, cabo-verdenses, guineenses, são-tomenses e, claro, brasileiros, todos temperaram os debates com sua forma particular de se expressar, mas a conclusão foi uníssona: ainda é tênue a linha que une as culturas.

"Há uma tendência de se observar a África como um continente de cultura única, compacta", observou o angolano João Melo. "É equivocado pois, mesmo entre os povos que falam a língua portuguesa, a diferenças são muitas. E isso já dificulta a integração."

Melo morou no Brasil durante quase dez anos, como correspondente de imprensa, período em que descobriu desde preconceitos até momentos de plena harmonia cultural. "Até no modo de andar, eu vejo semelhanças entre brasileiros e angolanos, mas também passei por situações críticas como fazer uma estudante brasileira entender que também líamos Shakespeare em Angola."

Autor de Filhos da Pátria (Record), ele comunga de um pensamento de José Saramago, que figura como epígrafe de seu livro: "Saberíamos muito mais das complexidades da vida se nos aplicássemos a estudar com afinco as suas contradições em vez de perdermos tanto tempo com as identidades e as coerências."

Já o brasileiro Alberto Mussa, cuja obra se apoia no sincretismo, acredita ser falsa a expressão "cultura afro-brasileira". "Não existe essa separação, pois há mitos de origem africana que hoje são nossos, incorporados ao cotidiano", comentou. "E a mitologia serve para um povo se definir e se distinguir", completou seu colega de mesa, o nigeriano Felix Ayoh"Omidire.

Paralelo às discussões sobre as culturas afro e brasileira, o Fórum das Letras foi palco também de avaliações sobre poesia. A mineira Adélia Prado atraiu, novamente, uma pequena multidão que ouviu extasiada suas concepções artísticas, como: "Não existe transcendência sem passar pela cozinha e o banheiro, por isso que a literatura é suja, incompleta, com excrementos."

Também o veterano Décio Pignatari, aos 83 anos, continua iconoclasta. "A poesia acabou", decretou. "Hoje, sou um ex-poeta."

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